Artista do Desastre

Jun 5, 2018

Imagens

The Room é um filme especial para muita gente (eu incluso). A maioria dos filmes ruins são apenas filmes com um roteiro equivocado, baixo orçamento, atuações pedestres e uma direção perdida. Os sharknados da vida, por exemplo, são divertidos, mas foram já feitos sem a intenção de serem bons. E a saga Transformers apenas comprova que Michael Bay está cada vez mais senil. Já obras como The Room possui um charme em sua produção que transcende o trash, o gore ou qualquer outro atributo que você utilize para a categoria dos filmes ruins. Ele transcende de tal forma que ele merece um filme sobre ele, tal poder de sedução ele exerce para o cinéfilo apaixonado pelo Cinema e o que quer que seja que ele tem a oferecer. Vamos analisar um pouco o que é isso.

Cult isolado deste século entre os filmes que deram muito, muito errado, The Room atraiu a atenção de James Franco, que resolveu atuar interpretando Tommy Wiseau, o responsável pela produção, direção, roteiro do filme original. Sendo fiel à proposta, Franco, que está irreconhecível no papel de Wiseau, também dirige o longa sobre a produção do The Room, que é narrada à luz do livro autobiográfico do melhor amigo de Wiseau, que foi o segundo ator do projeto e que aqui ganha vida através do irmão do diretor, Dave Franco. Dave e James são atores consagrados há um tempo, a ponto de se sentirem confortáveis interpretando pessoas da vida real que não o são. Desde o começo do relacionamento deles percebemos que ambas as figuras, Wiseau (James) e seu novo amigo Greg (Dave), nunca chegariam muito longe utilizando a falta de talento na dramaturgia.

Mas por sorte do destino Wiseau é uma figura estranha, mas que tem dinheiro. Muito dinheiro, por sinal. Ele tem casas em São Francisco e em Los Angeles, para onde eles estão indo para se tornar o novo James Dean. Quer dizer, ao menos Greg, que tem idade para isso. Tommy, não sabemos sua idade, mas sabemos que ele se interessa por jovens da idade de Greg, além de ter um sotaque irreconhecível, e que ele insiste em dizer que veio de Nova Orleans. Wiseau possui um temperamento que beira o bebê chorão. Mas como ele é dono da bola todos em sua volta são obrigados a aguentar os ataques de humor, as ofensas gratuitas e o gigante buraco negro de fama onde ele pretende se enterrar e a todos que confiarem em seu projeto: roteirizar, produzir, dirigir e atuar em um filme 100% independente.

Verdade seja dita: sem o carisma empregado por James Franco a uma criatura tão polêmica quanto Tommy tudo iria por água abaixo. O sujeito é antipático no máximo, mas possui uma certa paixão pelo Cinema que não passa pelo filtro da razão. Ele é muito estúpido para ter um filtro da razão. Ele é puro, infantil, ciumento, invejoso. Está na cara que ele teve uma história de traição em sua misteriosa vida e que isso está agora sendo representado diantes das câmeras. É praticamente um autista tentando filmar sua obra-prima. Me faz lembrar de Abed, de Community, quando ele grava um filme para que seus pais entendam o motivo dele ter o sonho de ser cineasta. O resultado é horrível e apenas seu pai entende. Algo me diz que ninguém consegue entender racionalmente The Room, mas muitos conseguem capturar a essência do que ele representa para o Cinema.

Já Dave Franco é o parceiro ideal de James para fazer Greg, pois o seu jeito de amigão, bonito e simpático, é o reflexo positivo que Tommy precisava para sua bizarra existência. Greg também não é um ator muito bom, mas estando em Los Angeles as oportunidades mínimas para viver da arte começam a surgir. Ele namora uma garçonete (Alison Brie) e através dela tem contato com Bryan Cranston (que faz uma ponta sendo ele mesmo, assim como vários atores e atrizes), na época atuando em uma série de sucesso, Malcolm. Ele ganha um convite para participar de um episódio onde precisa manter sua barba. É apenas um dia antes dele precisar fazer a barba para o filme de Tommy. Greg é incapaz de mentir para o amigo. Tommy é sincero demais e Greg gente boa demais. E o resultado é que ele despedaça essa amizade em questão de segundos.

Artista do Desatre é um ótimo retrato de como filmes absurdos podem surgir, filmado com a câmera na mão em estilo documental e imediato. Mas é muito mais do que documental. Ele é sobre essa fascinação sobre esse conteúdo horrível que aparece no Cinema de vez em quando. The Room é um desses marcos, virou um cult, e pessoas de todo o mundo não conseguem deixar de gostar deste filme. Assim como eu. Curiosamente o filme traça um paralelo com a própria figura de Tommy Wiseau. Ele é uma pessoa difícil. Horrível, podemos dizer. E ingênua. E essa ingenuidade é tão impactante para os que apreciam arte que se torna seu escudo para o ódio, e o trampolim para o sucesso do underground.

Wanderley Caloni, 2018-06-05. The Disaster Artist. EUA, 2017. Escrito por Scott Neustadter e Michael H. Weber baseado no romance autobiográfico de Greg Sestero e Tom Bissell. Dirigido por James Franco. Com James e Dave Franco, Seth Rogen, Ari Graynor, Alison Brie, Jacki Weaver, Paul Scheer. IMDB.