As Aventuras de Pi

Pi começa já anos depois dos eventos que são narrados, com um protagonista adulto (Irrfan Khan) e conversando com o escritor (Rafe Spall) que dará vida literária à sua história. Antes de conhecermos o herói temos uma breve introdução sobre o seu nome, uma longa anedota envolvendo um tio e sua fixação por piscinas e que termina em uma brincadeira boba entre matemática, razão e o trocadilho sobre o fato de Pi ser um número “irracional” — e talvez aqui seja a origem da grande trollagem que acredito Ang Lee estar pregando aos religiosos que assistirem ao filme.

Quando jovem (Suraj Sharma), por ser indiano, Pi possui a religião naturalmente inserida em sua cultura, motivo pelo qual busca compreender a vida através da pluralidade destas, coisa que o sábio pai desaprova, pois para ele uma melhor ideia fosse primeiro usar a razão para chegar aos mesmos objetivos. E aqui chegamos em um dilema: é óbvio que um espectador religioso pode ter um contato mais profundo com os “desígnios do roteiro”, mas estará raciocinando de forma tão desenganada quanto o próprio Pi. Chega a ser patético que o roteirista David Magee gere uma coincidência absurda fazendo com que o herói aceite ao mesmo tempo as religiões mais populares do planeta – incluindo o deslocado cristianismo – tentando obviamente atingir o maior número de espectadores “fiéis”. Por outro lado, ironicamente, se um católico ao assistir o filme achar engraçado qualquer outro ritual não-cristão que Pi executa – crente em suas outras religiões – estará admitindo inconscientemente a sua ignorância destas e ao mesmo tempo sinalizando que é capaz de acreditar em qualquer bobagem narrada pelo herói.

A sensação que o filme nos traz desde o início, então, é que a narrativa se assemelha mais a uma parábola do que uma história feita para acreditarmos. O fato do protagonista ser extremamente religioso e levar sua religião para dentro do barco onde se torna o único sobrevivente de um naufrágio parece reforçar essa hipótese ainda mais, pois mesmo no limite de suas capacidades físicas as suas crenças ainda parecem dominar seu instinto básico e sua noção de realidade. Difícil acreditar que um sujeito desses tenha razão e discernimento para viver tanto tempo ao lado de um tigre, sendo que no começo da história já o vemos cometer a insensatez de querer ser amigo de um feroz carnívoro. O fato do tigre se chamar “Richard Parker”, ou seja, antropomorfizado pelo nome de um humano, gera uma rima óbvia com o trabalho de Tom Hanks em O Náufrago e o seu inanimado e redondo amigo Wilson.

Tudo isso mais atrapalha do que ajuda nossa identificação com o seu drama e seus atos, que são tão destituídos de personalidade que muitas vezes até os ângulos da câmera reforçam para o espectador que Pi na verdade é qualquer um de nós. Não que isso torne tudo mais real, mas o problema é que suas reações são desprovidas de traços que o diferencie de qualquer outro ser racional em busca de sobrevivência (com exceção, claro, do seu lunatismo em ser amigo de um tigre no meio do oceano).

Porém, é inegável que o filme seja tecnicamente impecável e que isso gere uma beleza até então jamais vista com tanta naturalidade (com exceção óbvia do excelente Avatar). Irônico que seja o nosso avanço tecnológico um aliado melhor para tornar a história “acreditável” do que o próprio apelo religioso, que soa como uma discussão tão rasa e primária que chega a ser patético que ela ocupe tanto tempo no início. De qualquer forma, religiões à parte, a história não possui força o suficiente para transformar os eventos que ocorrem mais do que são: motivos para encher os olhos do espectador, e só. E mesmo o uso do 3D se limita ao básico, errando novamente ao utilizar o foco e acertando nas cenas com profundidade de campo. Mesmo assim, cenas muito movimentadas fazem perder facilmente a lógica visual.

Mesmo sem uma história que entregue alma à experiência de Pi, sua conclusão final ainda nos entrega através de um longo diálogo empacotado em uma embalagem de filosofia barata uma versão alternativa e mais realista da mesma história, com que o autor conclui que aceitar a versão mais fantasiosa é equivalente a acreditar em deus (qualquer deus). De uma maneira aparentemente ingênua Ang Lee parece dar mais motivos para os ateístas continuarem ateístas do que um conforto para os religiosos. Se bem que, considerando que o interlocutor de Pi logo em seguida explica toda a versão realista da história, seja compreensível que as pessoas talvez achem dignificante terem participado de um espetáculo visual que ilustra à mais nova criada “Parábola do Leão”.

★★★☆☆ Wanderley Caloni, 2013-01-03 imdb