As Vantagens de Ser Invisível

Primeiro filme dirigido por Stephen Chbosky depois de 95, a história do tímido Charlie parte do roteiro e romance escritos pelo mesmo Chbosky. Se não possui traços bibliográficos, ou mesmo que possua, há um mérito considerável em conseguir narrar o arco dramático de um protagonista adolescente sob sua ótica e ainda conseguir a proeza de ser poético, intenso e divertido durante cada momento.

O elenco está completamente à vontade em seus papéis, e não são desperdiçados em nenhum momento, com um destaque positivo para Emma Watson por ter conseguido se desvencilhar do estereótipo de “Hermione” (da série Harry Potter) tão rapidamente. Seguindo os passos de As Melhores Coisas do Mundo (Laís Bodanzky), os jovens do filme não são adolescentes idiotas, mas são seres humanos como outros quaisquer. São tridimensionais, o que é vital para que nos identifiquemos com a história de cada um deles e estejamos interessados em acompanhar o desenrolar da evolução de Charlie (Logan Lerman), um garoto tímido entrando no primeiro ano do ensino médio, em torno de seus novos amigos veteranos Sam (Watson) e Patrick (Ezra Miller).

Com uma interpretação mais intensa do que todos, Logan Lerman possui uma timidez crônica que o isola de todos, mas que graças aos seus pensamentos traduzidos em cartas conseguimos entendê-lo e interpretá-lo da melhor forma, o que torna suas experiências intensas para o público, embora esteja quase sempre calado. Com trejeitos típicos de um introvertido incorrigível, mas demonstrando sua evolução conforme avança em suas novas amizades, aos poucos vamos percebendo que o motivo da introspecção de Charlie talvez resida em eventos do seu passado que coincidam na mesma proporção dramática com o que passou a mais madura Sam. Essa conexão entre os personagens permite que olhemos, apesar de sempre pela ótica do sempre calado Charlie, para os sentimentos de Sam e até mesmo de seu meio-irmão Patrick, vivido por Ezra Miller com um carisma que carrega o filme em seu primeiro ato.

O roteiro, apesar de superficialmente leve e com um caráter de “filme de adolescentes” não se intimida em abordar temas mais sensíveis como abuso infantil e homossexualidade. Aliás, o grande trunfo da direção de Chbosky é nos deixar à vontade com seus personagens para que esses assuntos sejam abordados mais de perto. E é admirável que apesar de tratar da sensibilidade dos seus personagens a fundo a história nunca explore seus sentimentos de forma barata, mas os respeite como seres humanos e evita eo máximo contradizer suas personalidades e mesmo seu conceito narrativo. É por isso, por exemplo, que nunca vemos uma cena da luta em que Charlie se envolve em determinado momento, por estarmos acompanhando a história sob seu ponto de vista e sabermos que o garoto possui blecautes constantes quando está em um nível de estresse alto.

Nunca perdendo o ritmo em seus desdobramentos, nem deixando de ser divertido ainda que tratando dos assuntos delicados já descritos, As Vantagens de Ser Invisível possui aquele mérito dos filmes de John Hughes (Clube dos Cinco) em abordar o universo adolescente sob o ponto de vista dele mesmo, não nos privando dos sentimentos dessa fase tão confusa quanto libertadora.

★★★★★ Wanderley Caloni, 2012-11-29 imdb