Assassinato no Expresso do Oriente

Hercule Poirot de Kenneth Branagh sem dúvida alguma é uma das melhores caracterizações do personagem de Agatha Christie. Olhe seu perfeito e grandioso (e simétrico!) bigode. Ouça seu sotaque belga definindo sua personalidade através do seu rápido raciocínio e sua maneira de enxergar o mundo. “Existe o certo e o errado. E no meio não há nada.” Tire este Poirot e a história e produção irão rápido demais para o filme terminar são e salvo.

Bom, esta segunda reencarnação nos cinemas do livro homônimo da Rainha do Crime tenta subverter sua noção (e a de Poirot) de que só há o certo e o errado. Como consequência distorce a alma do próprio detetive, compensando as “almas fraturadas” a bordo de um luxuoso embora apertado trem. Neste filme não se trata de fazer justiça, pois a noção de justiça é subvertida pelos tempos atuais, concluindo que de fato há alguma coisa entre o certo e o errado: o… bom senso?

Com um elenco de luxo, como foi no filme original (Sidney Lumet, 74), acompanhamos uma viagem interrompida por um acidente de percurso que revela um não-acidente: o assassinato de um contrabandista e falsificador (Johnny Depp, o que está fazendo aqui?). Este farsante, vamos descobrir, também é um sequestrador e assassino do filho de um importante militar. Os detalhes da trama vão sendo revelados ou descobertos aos poucos, e um certo senso de impotência cerca o melhor detetive do mundo.

Não vale a pena analisar os personagens secundários, pois eles são meras caricaturas, faladores dos diálogos escolhidos pelo roteirista Michael Green (Logan), que parece no primeiro ato do filme se interessar absurdamente pela personalidade do detetive belga, para depois passar para uma corriqueira e burocrática listagem dos eventos que sucedem após o Orient Express finalmente partir. O protagonista desta história deveria ser Poirot, mas ele perde foco antes do crime sequer ser cometido.

Certo de que os espectadores de hoje em dia, várias gerações de fãs da escritora britânica, desconhecem a trama e seus segredos – uma ingenuidade sem tamanho – o filme parece incapaz de se aproveitar do óbvio ululante de que todos na sala já sabem o desenrolar da história ou, se não sabem, com certeza não conseguirão descobri-la no espaço de alguns minutos. Dessa forma, o processo de investigação se torna monótono, desnecessariamente complexo, cheio de detalhes que podem até tentar dar o ar de desorientação que o verdadeiro detetive teve nas páginas do livro, mas no fundo parece apenas desorientar o próprio espectador na esperança de que ele não revele o clássico mistério.

Além disso, o elenco de luxo pouco pode fazer, já que suas falas e participações são mínimas e parecem reservadas apenas para que nós não confundamos quem é quem. Mas é claro que com Tom Bateman, Josh Gad, Johnny Depp, Judi Dench, Willem Dafoe, Penélope Cruz e Michelle Pfeiffer no elenco fica difícil misturar as pessoas. De certa forma esta é uma peça teatral cinematográfica, já que todos os detalhes que cercam a trama original foram resumidas em caras, bocas e falas peculiares. Todo o elenco está exagerado para chamar a atenção para si mesmo, o que é um grave defeito em um filme cujo desenrolar vai revelando que cada um parece ter parte de culpa no cartório.

Prejudicado ainda pela péssima decisão de fabricar quase todos os cenários em computador, seja o Paquistão, a estação de trem, o próprio Orient Express ou as montanhas majestosas de gelo pelo caminho, o filme parece plástico demais, e oferece algumas falhas de fotografia que inserem personagens em torno de um cenário com paletas levemente diferentes, dando a impressão dele estar destacado do todo. Isso acontece principalmente porque as cores estilizadas do interior do trem ou do cenário externo não bate com a escolha dos diferentes figurinos dos personagens, cujas cores e tons variam enormemente. Portanto, ao usar efeitos digitais o filme não consegue realizar a mistura de cores necessárias para que toda a ação soe pelo menos real.

Além disso, tanto a trilha sonora clichê, chupinhada das séries enlatadas policiais dramáticas da Netflix, quanto decisões específicas do roteiro, que colocam Hercule Poirot em duas sequências de ação que fariam Agatha Christie se apunhalar nas costas 12 vezes, retiram toda a aura clássica e peculiar das tramas da escritora inglesa para um filme policial pseudo-dramático genérico. É divertido observar algumas brincadeiras e mexidas na história original, desde que ela tenha um motivo. E o motivo para praticamente todas as alterações da equipe de Branagh me escapam.

Ainda assim, com graves defeitos de produção, roteiro e direção (Branagh parece obcecado em mostrar a ação de todos os ângulos possíveis, retirando o mistério da trama), Assassinato no Expresso do Oriente ainda consegue se tornar forte pela sua trama principal, mesmo que já saibamos seu desfecho. E mesmo que o filme faça uma brincadeira incabível entre os personagens e A Santa Ceia (o humor do diretor parece escapaar ao senso comum) o filme ainda consegue concluir com uma certa dignidade.

Dignidade essa que foi obtida por uma distinta dama décadas atrás, através da observação perspicaz dos costumes da alta nobreza, nos inserindo em crimes e mistérios cuja graça não era apenas tentar desvendá-los, mas observar as criaturas grotescas que a aristocracia britânica parecia fabricar com tanta naturalidade. Essa seria uma melhor crítica social do que focar em racismo e nazismo, algo tão batido hoje em dia.

★★★☆☆ Wanderley Caloni, 2017-12-11 imdb