Atari: Game Over

Esse é o tipo de filme que teria tudo para ser inútil, superestimado pelos fãs e um desastre completo, pois possui poucos elementos realmente interessantes nele: temos o Atari, o E.T. e Indiana Jones, coisas totalmente desconexas, além de pouco conteúdo para um filme inteiro. Isso não fosse o trabalho fascinante de “desarquivamento” do filme que une mídia, a empresa Atari, os programadores, os fãs e os dois responsáveis por “desencavar” essa história, e temos como resultado um possível clássico daqui a cinquenta anos – quem apostaria? – já que ele estabelece um universo e uma lenda que dificilmente existirão novamente; nunca na geração única dos primeiros players caseiros: uma empresa à beira da falência enterra milhões de cartuchos de seus jogos no aterro da cidade.

O diretor Zak Penn, roteirista de blockbusters de sucesso – entre eles O Último Grande Herói, a série X-Men e O Incrível Hulk – e também um fracasso ou outro – como Elektra – já trabalhou com o documentarista Werner Herzog no filme que tenta desvendar a lenda do Monstro do Lago Ness. Mas a lenda do enterro do E.T. não é tão antiga assim, nem cercada de mistérios e histórias passadas de pai para filho. Aqui temos simplesmente uma pequena lenda urbana que tenta reproduzir a grandiosidade do fracasso de uma empresa e um jogo que é, de acordo com alguns, o “pior de todos os tempos”. A diferença é óbvia: as pessoas que jogavam Atari ainda estão vivas. Na época onde tudo isso aconteceu já era possível ser gravado e filmado, ainda que sem a velocidade de compartilhamento da internet. A busca dos cartuchos provavelmente enterrados é um trabalho de arqueologia, sim, mas no mesmo nível que um morador cavoca seu quintal para procurar por um tesouro que havia enterrado na infância.

E é mais ou menos assim que todo o filme prossegue, unindo a figura de um Indiana Jones em busca do tesouro com o criador do jogo para Atari desse personagem, o programador Howard Scott Warshaw. Howard foi responsável por Yars’ Revenge, um sucesso de crítica e público entre os milhares de cartuchos lançados pela Atari. Isso o torno elegível como o designer de criação e adaptação de Caçadores da Arca Perdida para o console, mais um sucesso de vendas. A grande sacada do filme é embalar através de colagens e gráficos a relação entre o que o projeto “Game Over” faria – resgatar o tesouro perdido dos cartuchos enterrados – com a figura do arqueologista aventureiro. Unindo o lúdico ao pop, é marcante a sequência em que um dos apoiadores do projeto busca o DeLorean (De Volta para o Futuro) pertencente ao roteirista George R. R. Martin (Game of Thrones) e um E.T. em tamanho natural do museu do cinema e saem em direção ao local onde foram enterrados os cartuchos.

Tendo como ponto alto também a entrevista e o histórico de vida de Howard Scott, quase como uma tentativa de redimir a atribuição que muitos fazem da falência do console graças ao lançamento do E.T., toda a sequência final envolvendo a escavação de fato e a vinda de fãs de todos os lugares, além da propícia “tempestade de areia” – cuja relação com a introdução de “Contatos Imediatos…” o filme não perdeu – torna Atari: Game Over um registro inspirado e criativo sobre uma lenda urbana criada em nossa própria geração.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2015-12-13 imdb