Até o Último Homem

Este é um filme que presta uma homenagem mais do que merecida a um homem que salvou diversas vidas durante uma batalha sem atirar uma bala. Mel Gibson, porém, pega o roteiro de Robert Schenkkan e Andrew Knight e transforma em algo muito, muito maior. Este é um filme de guerra que realiza uma ode à não-guerra. Ele usa levemente a simbologia cristã, mas seu foco são os princípios morais que regem a carnificina legalizada que é um campo de batalha, e com isso humaniza a condição dos soldados massacrados, mostrando o que tiver que mostrar para passar sua mensagem. É um pouco ufanista? Talvez. Mas quem irá culpá-lo, já que o fanatismo do Japão medieval tornava os soldados inimigos verdadeiros mensageiros do demônio.

A história é uma biografia de Desmond Doss, filho de um pai alcoólatra (Hugo Weaving) que lutou na guerra anterior e que vive o pesadelo de odiar a si mesmo por suas ações e de ter sido o único sobrevivente de quatro grandes amigos. Consequentemente trata sua família com violência e sequer lhe chama a atenção seus dois filhos brigarem no quintal de sua casa. Desmond passa então pela experiência de ter quase matado seu irmão, e anos depois se regozija de ter conseguido salvar um garoto atropelado e por ter conhecido a bela enfermeira Bertha, o amor de sua vida.

Se essa narrativa lhe soa familiar, é porque é. Soaria até clichê, se não fosse pela interpretação quase sem cacoetes de um Andrew Garfield empenhado em dar o seu melhor para construir essa persona contraditória que vai à guerra sem o objetivo de matar, mas dona de valores pelos quais não se dobra. Desmond é de uma família de adventistas do sétimo dia, que é contra a violência e de trabalhar aos sábados. Porém, vendo o horror da guerra, ambos os irmãos se alistam, sendo que Desmond como “objetor consciente”, o que seria uma forma de se livrar do alistamento, mas que aqui em sua mente se traduz em ir para a guerra salvar vidas, e não tirá-las.

A primeira parte do filme é sobre sua provação no exército, contrariando como funcionam as leis, a cadeira de autoritarismo e o próprio sentido da guerra. É a parte mais cativante, vital para o sucesso da segunda parte, pois é aí que conhecemos o quão forte são as convicções de Desmond, que chega a perder seu casamento e estar à beira de uma prisão marcial por contrariar as bases do assassinato estatal legalizado. É nesse momento que vemos, por exemplo, que até um ator acostumado ao over como Vince Vaughn, como Sargento Howell, consegue se conter (ou se focar) em um papel fácil. O filme exibe um elenco equilibrado e competente, dotados de diálogos sucintos que tornam o roteiro um trabalho intrincado de pistas e recompensas (as recompensas apenas virão na segunda parte do filme).

Já a segunda parte não se traduz em um banho de sangue, mas em duas sequências que espelham o que o diretor Mel Gibson está querendo dizer. Se na primeira há um trabalho primoroso de montagem e edição (John Gilbert), onde a tensão coexiste com uma névoa diabólica em um campo de batalha onde chegar até um bunker pode prender a atenção do espectador indefinidamente, na segunda cena, muito mais estendida e lenta, há a sequência-chave que justifica o filme como um todo.

A perfeição técnica reina sobre Até o Último Homem, desde sua fotografia límpida e ao mesmo tempo construída sobre horizontes indefinidos e misteriosos e, por que não, ameaçadores, até a trilha sonora que evita soar batida pontuando com perfeição o significado de cada cena, com seu dramatismo e as tomadas de Gibson que deixam gritante que este é um filme anti-guerra, justamente como o próprio Desmond gostaria, e como todo homem de bom senso, religioso ou não.

Em algum momentos notamos um quê de exagero nos tons que o diretor adota, mas são tão rasos que o que fica como lembrança é um filme sólido, que consegue oscilar entre o drama e a ação, desde que ambas consigam contar uma história de imersão completa. Desmond Doss será uma figura eternamente lembrada, como ser humano, mas principalmente, como símbolo de como é pequena uma espécie que se digladia como selvagens a mando de governos obtusos que ignoram todo o sangue derramado entre as trincheiras.

★★★★★ Wanderley Caloni, 2017-02-15 imdb