Até o Último Homem

2017/02/15

Este é um filme que presta uma homenagem mais do que merecida a um homem que salvou diversas vidas durante uma batalha sem atirar uma bala. Mel Gibson, porém, pega o roteiro de Robert Schenkkan e Andrew Knight e transforma em algo muito, muito maior. Este é um filme de guerra que realiza uma ode à não-guerra. Ele usa levemente a simbologia cristã, mas seu foco são os princípios morais que regem a carnificina legalizada que é um campo de batalha, e com isso humaniza a condição dos soldados massacrados, mostrando o que tiver que mostrar para passar sua mensagem. É um pouco ufanista? Talvez. Mas quem irá culpá-lo, já que o fanatismo do Japão medieval tornava os soldados inimigos verdadeiros mensageiros do demônio.

A história é uma biografia de Desmond Doss, filho de um pai alcoólatra (Hugo Weaving) que lutou na guerra anterior e que vive o pesadelo de odiar a si mesmo por suas ações e de ter sido o único sobrevivente de quatro grandes amigos. Consequentemente trata sua família com violência e sequer lhe chama a atenção seus dois filhos brigarem no quintal de sua casa. Desmond passa então pela experiência de ter quase matado seu irmão, e anos depois se regozija de ter conseguido salvar um garoto atropelado e por ter conhecido a bela enfermeira Bertha, o amor de sua vida.

Se essa narrativa lhe soa familiar, é porque é. Soaria até clichê, se não fosse pela interpretação quase sem cacoetes de um Andrew Garfield empenhado em dar o seu melhor para construir essa persona contraditória que vai à guerra sem o objetivo de matar, mas dona de valores pelos quais não se dobra. Desmond é de uma família de adventistas do sétimo dia, que é contra a violência e de trabalhar aos sábados. Porém, vendo o horror da guerra, ambos os irmãos se alistam, sendo que Desmond como “objetor consciente”, o que seria uma forma de se livrar do alistamento, mas que aqui em sua mente se traduz em ir para a guerra salvar vidas, e não tirá-las.

A primeira parte do filme é sobre sua provação no exército, contrariando como funcionam as leis, a cadeira de autoritarismo e o próprio sentido da guerra. É a parte mais cativante, vital para o sucesso da segunda parte, pois é aí que conhecemos o quão forte são as convicções de Desmond, que chega a perder seu casamento e estar à beira de uma prisão marcial por contrariar as bases do assassinato estatal legalizado. É nesse momento que vemos, por exemplo, que até um ator acostumado ao over como Vince Vaughn, como Sargento Howell, consegue se conter (ou se focar) em um papel fácil. O filme exibe um elenco equilibrado e competente, dotados de diálogos sucintos que tornam o roteiro um trabalho intrincado de pistas e recompensas (as recompensas apenas virão na segunda parte do filme).

Já a segunda parte não se traduz em um banho de sangue, mas em duas sequências que espelham o que o diretor Mel Gibson está querendo dizer. Se na primeira há um trabalho primoroso de montagem e edição (John Gilbert), onde a tensão coexiste com uma névoa diabólica em um campo de batalha onde chegar até um bunker pode prender a atenção do espectador indefinidamente, na segunda cena, muito mais estendida e lenta, há a sequência-chave que justifica o filme como um todo.

A perfeição técnica reina sobre Até o Último Homem, desde sua fotografia límpida e ao mesmo tempo construída sobre horizontes indefinidos e misteriosos e, por que não, ameaçadores, até a trilha sonora que evita soar batida pontuando com perfeição o significado de cada cena, com seu dramatismo e as tomadas de Gibson que deixam gritante que este é um filme anti-guerra, justamente como o próprio Desmond gostaria, e como todo homem de bom senso, religioso ou não.

Em algum momentos notamos um quê de exagero nos tons que o diretor adota, mas são tão rasos que o que fica como lembrança é um filme sólido, que consegue oscilar entre o drama e a ação, desde que ambas consigam contar uma história de imersão completa. Desmond Doss será uma figura eternamente lembrada, como ser humano, mas principalmente, como símbolo de como é pequena uma espécie que se digladia como selvagens a mando de governos obtusos que ignoram todo o sangue derramado entre as trincheiras.

★★★★★ Título original: Hacksaw Ridge. País de origem: Australia. Ano 2016. Direção: Mel Gibson. Roteiro: Robert Schenkkan. Andrew Knight. Elenco: Andrew Garfield (Desmond Doss). Richard Pyros (Teach). Jacob Warner (James Pinnick). Milo Gibson (Lucky Ford). Darcy Bryce (Young Desmond). Roman Guerriero (Young 'Hal' Doss). James Lugton (Hiker). Kasia Stelmach (Hiker's Friend). Hugo Weaving (Tom Doss). Edição: John Gilbert. Fotografia: Simon Duggan. Trilha Sonora: Rupert Gregson-Williams. Duração: 139. Razão de aspecto: 2.35 : 1. Gênero: Drama. Tags: popcorntime oscar2017

Share on: Facebook | Twitter | Google