Atividade Paranormal 3

Wanderley Caloni, November 24, 2011

Usando ainda a velha fórmula de câmeras caseiras que registram eventos aparentemente sobrenaturais, essa quarta edição de Atividade Paranormal (houve um “spin-off” japonês: “A.P. ? Desafio em Tóquio”?) continua funcionando muito bem como terror ao gerar medo tanto pelas situações comuns pelos quais todos nós passamos (como a sensação de ter o cobertor puxado no meio da noite) quanto o caráter documental do filme, sem contar a tensão sempre crescente por estarmos, obviamente, aguardando por sustos. Este último ingrediente da série, aliás, chega a ser o tempero especial, pois os sustos geralmente são entregues aos poucos e de maneira caprichosa, o que acaba gerando mais tensão ainda para o grand finale.

A história dessa vez está contida em vídeos que foram gravados pelo pai de uma família no final dos anos 80 no bom e velho VHS. Ele registra festas de casamento, o que automaticamente explica o fato dele ter diversas câmeras. O motivo inicial das filmagens caseiras, porém, está na estranha poeira capturada em uma gravação acidental que deu a impressão para ele e seu irmão que se tratava da silhueta de uma pessoa. Disposto a capturar fenômenos parecidos, o marido começa a gravar as noites em seu quarto e no de suas duas filhas pequenas.

Seguindo a mesma fórmula dos outros filmes, mas com diferenças cruciais que tornam a narrativa mais fluida e interessante, a dupla de diretores quase novatos consegue a proeza de construir cenas mais uma vez inusitadas em torno dos acontecimentos. O uso de uma câmera em cima de um ventilador improvisado, por exemplo, acaba se tornando fonte de criatividade do próprio espectador, que precisa acompanhar a ação que se passa em um campo maior do que a câmera consegue cobrir, precisando preencher lacunas mentalmente, o que por si só aumenta a imaginação em torno dos eventos.

No caso do elenco, o fato da filha caçula conseguir enxergar e se comunicar com o suposto espírito que vaga pela casa aguça ainda mais nossa curiosidade, pois a menina, enquanto revela pequenos detalhes sobre seu amigo invisível, insiste em evitar falar aos pais sobre a maior parte de suas conversas, sob o pretexto de estar em segurança caso mantenha os segredos entre eles.

Por último nas novidades, o fato dos vídeos serem datados dos anos 80 permite que nos identifiquemos, ainda que de forma inconsciente, com os filmes e as crenças mais comuns da época. Dessa forma, é perfeitamente comum e aceitável que o irmão do pai clame pela proteção de Deus em uma sequência particularmente claustrofóbica. Também é digno de nota o esforço de direção de arte em tornar o quarto das meninas, com diversos objetos, roupas e brinquedos espalhados pelo chão, o mais caótico possível, o que apresenta para o espectador tanto uma sensação de desorientação quanto o refúgio do suposto espírito. Ao mesmo tempo, a união entre o filme envelhecido e efeitos mais elaborados ajuda ainda mais na verossimilhança dos eventos.

Ainda que siga coerência interna e construa uma lógica sutil alimentada por cada episódio, o fato do pai das meninas seguir filmando os fatos até as últimas consequências, por mais que elas fiquem realmente sérias, acaba quase inibindo a realidade das cenas. Porém, detalhes como ele se filmando enquanto analisa as fitas da noite anterior fazem parte de uma liberdade menor concedida e necessária para que a história como um todo possa ser entendida pelo espectador, desde que não atrapalhe em sua credibilidade.

Dessa forma, é ponto positivo que a relação entre os membros da família mostrada na tela soe natural e ajude a fortalecer esse realismo e a nos identificar um pouco com cada um. Da mesma forma, os sustos gratuitos existem, mas a boa notícia é que são acidentais, e ainda possuem a função de aumentar a tensão nas cenas mais prolongadas e próximas do final.

Apesar das novas invencionices o novo exemplar mais uma vez cai no conceito ao apresentar um plano final totalmente inspirado nos longas anteriores, o que praticamente revela seu desfecho. É digno de nota como, ao mesmo tempo que se beneficia do fruto de projetos experimentais anteriores como A Bruxa de Blair (até na hora de apresentar ruídos quase inaudíveis para aguçar a imaginação), ainda assim falta coragem artística (ou amarras comerciais?) para que seja apresentada uma conclusão tão corajosa quanto a dessa produção de 12 anos atrás.

Imagens e créditos no IMDB.
Atividade Paranormal 3 ● Atividade Paranormal 3. Paranormal Activity 3 (USA, 2011). Dirigido por Henry Joost, Ariel Schulman. Escrito por Christopher Landon, Oren Peli. Com Lauren Bittner, Christopher Nicholas Smith, Chloe Csengery, Jessica Tyler Brown, Hallie Foote, Dustin Ingram, Johanna Braddy, Katie Featherston, Brian Boland. ● Nota: 3/5. Categoria: movies. Publicado em 2011-11-24. Texto escrito por Wanderley Caloni.


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