Aura

Aura é um filme sobre um taxidermista – uma pessoa dedicada a empalhar animais – que é seguro sobre sua profissão e sobre como faria um assalto a banco, mas inseguro sobre todo o resto: não mataria um animal a sangue-frio na floresta, não consegue se relacionar com sua esposa, não entende como falar a verdade pode ferir pessoas. A grande lição do filme é como as coisas na teoria podem ser de um jeito, mas na vida real, os tons são infinitamente mais complexos. Seu título remete à situação de alguém que sofre de epilepsia, que de acordo com o protagonista, é um estado onde não há opção do que fazer, e isso é, de acordo com ele, perfeito por não haver escolha a se fazer.

E escolha é o que parece não existir para tudo o que acontece quando o pacato Esteban (Ricardo Darín) é convidado pelo seu colega a fazer uma viagem de caça. A partir dessa premissa, a separação de sua mulher, o fechamento do casino local, a falta de vagas nos hotéis, todas as circunstâncias conspiram para que as coisas aconteçam do jeito que acontecem no filme. Com nada ao acaso, mas intimamente conectado, o roteiro do diretor Fabián Bielinsky (do excelente Nove Rainhas) parece não deixar nenhuma ponta solta e ao mesmo tempo confiar totalmente na inteligência do espectador, pois nada é dito ou mostrado de forma gratuita. É o espectador, junto do protagonista, que precisa descobrir os detalhes de um plano de assalto que aos poucos vai se configurando através de pistas coletadas de diferentes pontos da investigação que Esteban realiza, quase que de forma inconsciente. Da mesma forma, somos nós que precisamos coletar evidências deixadas nas expressões e falas dos personagens secundários.

Realizando com maestria um thriller psicológico de maneira extremamente econômica, Aura é o tipo de filme para quem gosta de tramas inteligentes com ação apenas quando esta é necessária. Fundado em um personagem definido de maneira exemplar por Ricardo Darín, sua eficácia se deve primariamente à criação de um Esteban crível que convença de que tudo aquilo por que ele passa é possível de acontecer, e aconteceria com qualquer um. E só de pensar nisso, já é possível sentir arrepios.

★★★★★ Wanderley Caloni, 2015-12-27 imdb