Avatar

Wanderley Caloni, March 7, 2019

Existe um sonho de todo homem moderno. Um sonho interno, mais antigo que sua própria existência: voltar à sua essência. Ele consegue senti-lo quando coloca seus pés nus na terra macia, quando sente a vida em torno de si em uma troca de sensações e emoções que se traduzem em nossa linguagem como estar vivo. Sentir a respiração e a brisa passar. Nos sonhos mais malucos da nossa biologia evolutiva, talvez no corpo de um ser alado, sob os olhos de alguma outra espécie, nós voávamos, alto e sem medo, o que explica esse desejo recorrente e selvagem nos registros mais antigos da civilização.

Esses sonhos são traduzidos nesta mega-produção de James Cameron em uma história não-original que lembra Dança com Lobos e Pocahontas, mas que originalmente utiliza ficção científica e viagem espacial para sintonizar nossos olhos de volta para o antigo nativo, que segue à risca a máxima de Francis Bacon: “a natureza, para ser comandada, deve ser obedecida”.

Nessa história temos Jake Sully (Sam Worthington) como sua alma e os Na’vi sua alma mater. Ex-militar que perdeu o movimento das pernas, ele toma o lugar de seu falecido irmão para ter a oportunidade de se sentir vivo novamente, ou mais ainda: colocá-lo sob o comando remoto no corpo de um gigante nativo de um outro planeta que está sendo explorado por uma mega-corporação paramilitar.

Há dois lados disputando a forma de abordar este Novo Mundo chamado Pandora. De um lado temos a ciência, compreensiva, mas que ao mesmo tempo mantém um certo grau de arrogância. A sua cientista-chefe, interpretada de forma saudosa por Sigourney Weaver (ela e Cameron trabalharam em Aliens O Resgate), mantém o ceticismo e sarcasmo em alta ao lado do ex-milico Jake e seu relaxo em estudar os conhecimentos até então adquiridos deste povo que vive intensamente com a natureza de seu planeta.

Do outro lado temos o capitalismo predador irracional, em um mundo onde provavelmente sequer existe mais o jogo de fantoches representado por governos e onde as corporações vão direto ao ponto. Disposta a destruir tudo e todos do planeta “descoberto” para obter seu minério valioso, esse lado mantém a divertida mas exagerada caricatura de Stephen Lang como o Coronel Miles Quaritch, que parece ter surgido direto de um episódio de G. I. Joe. E ele vem com sangue nos olhos.

O que importa é que nos primeiros segundos dentro deste universo completamente idealizado por Cameron o coração pulsa mais forte. É quase como se fôssemos transportados para esse sonho, em um novo formato, mais azul e mais brilhante à noite. Mas ainda selvagem. Ainda desejado. Ainda essencial.

O que o torna poderoso pode ser os gigabytes de uma computação gráfica absurdamente perfeccionista, que entrega cada quadro como uma pequena obra de arte, embalada sob a densa e correta trilha sonora de James Horner, mas nada disso importaria se não fosse a coesão narrativa e o controle absoluto de seu diretor, que quando decide impressionar uma plateia, rapaz, ele impressiona.

James Cameron se apaixonou em suas explorações no oceano e nutriu o sonho de Avatar em seu coração. Para conseguir o dinheiro ele inventou esse romance clichê em outra mega-produção chamado Titanic, ganhou bilhões (além de uma dúzia de Oscars) e usou-os “para o bem”. Ele explora Pandora aqui com a melhor das intenções, e o subtexto da invasão do Iraque está sonora e clara nas falas dos personagens (“vamos combater terror com terror”).

O visual do filme é fantástico como uma animação. É como se os Estúdios Ghibli, de Hayao Miyasaki, com suas mensagens de ecologia, decididem dar uma guinada de 180 graus ao Ocidente e realizar tudo à moda do Oeste. Não se pode criticar qual lado inicia um movimento que tem valores tão nobres.

E para os que reclamam da história batida há sempre a desculpa que uso para produções com a marca de Cameron: ele é perfeccionista demais. Seu roteiro é simples para o grande público, que o assiste porque sabe que irá se impressionar sem precisar pensar muito. Este é um filme pensado no Cinema para as telonas e para que as pessoas vão às salas. Mas ao mesmo tempo é um roteiro correto, honesto, com ganchos bem pensados do começo ao fim. Cada novo elemento é apresentado pelo menos algumas páginas antes de ser usado, e faz parte de nosso passeio turístico ao exótico mundo azul.

Por falar em passeio, Cameron planeja há vários anos continuações para Avatar. Pelo menos duas, que mais tarde foram expandidas para quatro. Os dois primeiros em produção. Se eles não fizerem dinheiro o diretor, roteirista e produtor disse que não haverá mais dois. O que é natural. O capitalismo precisa de dinheiro para mover a indústria do Cinema, ainda que sua mensagem seja a de fazer-nos olhar para trás e irmos em busca de nossa própria essência como seres vivos em um planeta que precisa de nossa ajuda para alcançar o equilíbrio. Como esse é o maior desafio de nossa existência, acho que vale a pena tentar pensar sob diferentes olhos, voadores ou não.

Imagens e créditos no IMDB.
Avatar ● Avatar. Reino Unido, EUA, 2009. Escrito e dirigido por James Cameron. Com Sam Worthington, Zoe Saldana, Sigourney Weaver, Stephen Lang, Michelle Rodriguez. ● Nota: 5/5. Categoria: movies. Publicado em 2019-03-07. Texto escrito por Wanderley Caloni.


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