Ave, César!

O próprio ato de se fazer filmes é um filme em si. Os irmãos Coen (Bravura Indômita, Fargo, O Grande Lebowski) elencam um alto escalão para fazer parte de uma série de desventuras em várias produções hollywoodianas. Com diferentes gêneros, atores, diretores, roteiristas e figurantes, o filme nos convida a repensar a própria vida sob a lógica do faz-de-conta que tem encantado gerações de famílias. Até, é claro, o surgimento da TV.

Estamos em algum lugar no tempo onde o cinema mudo deixa de existir, os épicos e adaptações da Broadway começam a pipocar. O diretor de uma produtora de Hollywood vira uma espécie de investigador de filme noir (ou o cara que faz o trabalho sujo). Ele nunca dorme, mantém as horas sob controle em seu relógio e se confessa na igreja com frequência. São pecados leves, como não conseguir parar de fumar como a mulher o pede. Mas, dentro do seu subconsciente, ele parece saber estar fazendo algo de muito errado.

E é isso que encanta no novo filme dos irmãos Coen. Seus personagens vivem em uma farsa sem ser darem conta. Uma gangue de comunistas protagoniza uma sequência anacrônica com toda a convicção (dando a deixa para homenagear todos os clichês de filmes de espião da guerra fria). Um astro do faroeste mudo sofre para dizer uma fala em um drama (e até isso já virou tema de filme no excelente O Artista). Até os jornais de fofocas recebem sua dose de absurdo, com uma dupla de gêmeas (Tilda Swinton) que brigam entre si para conseguir a melhor notícia bombástica sobre as celebridades, que parecem estar sempre a postas para aprontar.

O difícil nesse filme é apontar quem está melhor no elenco, pois este é afiadíssimo e está inspirado e cheio de energia; ele impressiona desde Scarlett Johansson e sua versatilidade, logo depois de uma sequência aquática de tirar o fôlego, vista de cima e por outros ângulos, até a pequeníssima ponta de Jonah Hill que faz valer a pena sua participação. Mas por ser a âncora de tudo isso e por ter o seu drama escancarado de maneira dúbia, o personagem de Josh Brolin, o diretor Eddie Mannix, é o que mais aparece em evidência. Com uma rotina de empresário, ele orquestra toda a loucura que são as produções do estúdio onde trabalha, incluindo manter a sanidade das estrelas; imerso por inteiro nessa vida, ele negocia até com o professor do filho uma posição no time de beisebol, embora quase não consiga ver o próprio filho. Chega tarde da noite para jantar a comida requentada da esposa, para logo depois ir para o segundo turno. A vida de Mannix é dura, e Brolin consegue retratá-lo com uma sensibilidade que transparece por trás de seu jeito às vezes durão, às vezes de pai amoroso.

Mas é Alden Ehrenreich a grande surpresa, que entre todos os figurões, fazendo o ator de faroeste Hobie Doyle no melhor estilo John Wayne – mas apenas o lado ator – Doyle é o exemplo de astro que cresce graças ao movimento de dezenas, centenas de pessoas tentando criar a mágica do velho oeste enquanto o rapaz realiza piruetas e diz seus diálogos monossilábicos. Sua curva de herói é a mais inusitada e simpática da trama, mas nem isso os diretores cínicos conseguem tornar ingênuo.

Junto de tantas atuações, quem brilha também é a fotografia absolutamente deslumbrante de Roger Deakins (Bravura Indômita, Os Suspeitos de 2013), que consegue oscilar de uma maneira sutil entre tantos ambientes diferentes de produções distintas e ainda assim unir tudo sob a luz de uma Hollywood icônica, idílica, eterna e nunca mais alcançável; a sequência com o submarino será a mais icônica e bela entre várias. É curioso que a direção de arte de Cara Brower consiga realizar a dupla função de mostrar os cenários e a equipe de produção por trás das câmeras que são filmadas, tudo isso ilustrado de uma maneira igualmente iluminada pela música de Carter Burwell, que realiza um pastelão sutil e que ecoa através de todos os sets de filmagem sem ser percebido.

Talvez esse seja mesmo a maior virtude de “Hail, Cesar!”. As pessoas que vivem nesse microcosmos ilusório realmente acreditam não estar em um filme, mas por viverem de maneira tão alheia à outra realidade – que nunca vislumbram – acabam fazendo parte do grande filme da vida quase que de passagem. O ator dramático Baird Whitlock (George Clooney vivendo um Charlton Heston mais canastrão) vai parar em um momento do filme no meio de uma sala de comunistas. George Clooney faz seu personagem parecer que nunca saiu para ver a vida lá fora, e basta uma tarde com esse grupo de malucos para ele se convencer das teorias de Marx e se sentir em casa. Esse ator nessa situação somos nós, espectadores, acreditando em cada quadro, cada cena e cada sequência da história que nos é contada na sala de projeção. Nossa ingenuidade volta a cada filme que vemos, na sala escura do cinema.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2016-08-01. Ave, César!. Hail, Caesar! (UK, 2016). Dirigido por Ethan Coen, Joel Coen. Escrito por Joel Coen, Ethan Coen. Com Josh Brolin, George Clooney, Alden Ehrenreich, Ralph Fiennes, Scarlett Johansson, Tilda Swinton, Channing Tatum, Frances McDormand, Jonah Hill. imdb