The Babadook

2015/01/22

É impressionante como tudo funciona em Babadook, e mais impressionante ainda sendo pertencente a um dos gêneros mais maltratados do Cinema atual no Ocidente: o Terror. Para tornar exponencial a minha surpresa, notei que a estrutura do filme é estupidamente simples e enxuta, se resumindo em pegar sua ótima premissa e desenvolvê-la ao máximo. Ainda é de brinde uma aula de Cinema.

A história mantém basicamente duas pessoas em foco, uma dependente da outra. A mãe (Essie Davis), Amelia, uma viúva que não consegue mais juntar forças para cuidar de seu filho superativo, Samuel (Noah Wiseman). O filme começa com um sonho de Amelia envolvendo o acidente que terminou com a vida de seu marido, mas o filme inteiro parece ser um enorme pesadelo. A mãe é enfermeira em um asilo e sempre se veste com roupas claras que dão a impressão de sempre estar de pijama. O sonho do início obviamente é uma dica disso, pois no final ela pousa em sua cama vestindo roupas comuns. Igualmente relevante são as cores da casa seguir os mesmos tons claros, relacionando uma coisa na outra: sonho e casa são a psique da protagonista.

O uso dos efeitos sonoros, construídos e usados por equipes extremamente eficientes, na maioria das cenas é o suficiente para entender o que está acontecendo. O uso dos sons mais altos aqui não é para pregar aqueles sustos baratos, mas finalizar uma ameaça. Já esperamos pelos sustos, o que os tornam mais assustadores ainda. Um destaque inesquecível é um momento em que Amelia acorda com aquele conhecido barulho de vozes e ao parar de descer as escadas os sussurros cessam. Encontramos o garoto na cozinha, o que deixa aquela sensação de ambiguidade sobre a origem de seus delírios, um artifício usado diversas vezes de forma eficiente.

Sem apelar para os velhos conhecidos demônios, espíritos ou qualquer maldição sobrenatural, Babadook se baseia em um livro homônimo que deveria ser para crianças, mas cujo teor revela uma bizarra ameaça/maldição. A sua origem não precisamos saber, nem interessa. O que importa é que a primeira leitura gera um impacto que irá ecoar por toda a narrativa, pois já sabemos que isso irá impressionar fortemente Samuel, que toda noite precisa de sua mãe para verificar o armário antes de dormir. O conceito de Babadook vai se tornando cada vez mais arraigado naquelas pessoas, quando percebemos que ele representa de maneira muito fidedigna os medos internos de uma mãe no limite de explodir. Ela aparece obviamente enfraquecida e só consegue se sentir melhor e se identificar com pessoas mais velhas. Ela até parece – vejam só – invejar a vida tranquila de sua idosa vizinha, sentada em sua sala assistindo TV.

Julgar sustos é tão injusto quanto julgar piadas, pois ambos são muito subjetivos para uma análise fria. Porém, não dá para negar que o grito que ouvimos de Babadook – que para mim é um dos mais aterrorizantes já ouvidos em um filme de terror – pelo menos ele é concebido para tal, tem uma lógica em suas três batidas – que é usada de forma inteligente e pontual – como descrito no livro, e relaciona, ainda que de forma inconsciente, um grito anunciando uma sentença de morte. Ou pelo menos uma noite muito ruim.

Para evitar estragar toda a experiência do desconhecido usando um boneco digital super-exposto – como o medíocre Mama – a diretora/roteirista Jennifer Kent realiza algumas trucagens que funcionam maravilhosamente bem. Por exemplo, mesmo que o monstro apareça em alguns momentos, e ainda com movimentos sutis ou com recortes grosseiros, sempre há a desculpa do sonho. E quando eles o veem acordados nós não o vemos na verdade, mas acontece algo ainda pior: a câmera toma o ponto de vista do monstro, incluindo uma passagem particularmente terrível (no bom sentido) em que o vemos descer as escadas direto para o porão.

E o porão, é claro, é onde residem nossas memórias. As boas, as más, e os monstros. E é essa a grande metáfora do filme. A fraqueza da mãe só se torna perigosa quando, logo no início da história, o que está no porão vem à tona. E mais terrível do que o monstro é esse nosso monstro interno que faz-nos dizer coisas que não gostaríamos que fosse dito para magoar nossos entres queridos. O fato da ameaça verbal virar ameaça física é apenas um detalhe. Muitas vezes o estrago inicial é muito mais duradouro. Esse medo de magoar as pessoas, e consequentemente a si mesmo, talvez seja o pior do filme e o que nos deixa verdadeiramente com medo, por um simples motivo: sabemos que ele é real e que pode vir à tona em nossos piores momentos.

★★★★★ The Babadook. Australia, 2014. Direction: Jennifer Kent. Script: Jennifer Kent. Cast: Essie Davis. Daniel Henshall. Noah Wiseman. Tim Purcell. Tiffany Lyndall-Knight. Michelle Nightingale. Cathy Adamek. Peta Shannon. Hayley McElhinney. Edition: Simon Njoo. Cinematography: Radek Ladczuk. Soundtrack: Jed Kurzel. Runtime: 93. Ratio: 2.35 : 1. Gender: Drama. Category: movies

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