Barcelona

Wanderley Caloni, May 18, 2019

Barcelona é um filme que se insere em um momento político tenso na cidade-título e extrai momentos brilhantes acima da média em seu texto e em suas gags visuais. Ele mostra uma dupla de primos que moram juntos saindo e se envolvendo com lindas garotas espanholas, mas seu sub-texto é tanto político quanto um leve e agradável estudo de personagem. É um filme engraçado, mas para se rir com a mente, não com o estômago.

Isso porque ele tem uma pegada Woody Alleniana que pode afastar algumas pessoas. Isso é quando um ou dois personagens falam longos diálogos, mas estes diálogos não são enfadonhos para a maioria dos mortais que talvez não seja interessante de se assistir. Porém, para os pacientes, eles se tornam incrivelmente inteligentes, com múltiplas camadas, que dizem algo interessante por si só mas ao mesmo tempo nos permite analisar a pessoa que o diz. Se torna um exercício tão fascinante que você não vai mais querer parar de ouvir e querer entender a dinâmica dessas pessoas até o final da história.

Este é um dos melhores roteiros de comédia já vistos desde A Primeira Noite de um Homem. Ele inclusive cita o final do filme com Dustin Hoffman e que deve ter inspirado seu idealizador, o diretor/roteirista/produtor Whit Stillman, que fez em sua breve carreira até o momento meia-dúzia de filmes (fui na cabine de um deles, uma filmagem de Jane Austen, Amor e Amizade.

Seus personagens são um vendedor de Chicago alocado em Barcelona e o seu primo recém-chegado, um militar da marinha, que chega no continente em um momento tenso, no final da Guerra Fria, onde atentados estão acontecendo e um sentimento anti-americano crescente evoca das ruas. Vemos alguns de vez em quando, o que torna o clima do filme tenso e nos faz prestar atenção em volta.

Mas nada é verdadeiramente exagerado aqui. Este é um trabalho que escala com paciência e naturalidade, explorando essas personas enquanto se diverte com as situações. Você sente tudo isso graças ao roteiro e direção precisos que estabelecem o nível de informação necessária para que fiquemos informados. O que é para ser visto nós vemos filmado da melhor maneira. Pessoas conversando e andando pela rua, dirigindo carro, dançando em uma festa. O que é preciso ser dito ouvimos através dos diálogos e da narração.

E os diálogos é que estabelecem a personalidade desses dois. Um é compenetrado, um tanto autista. O outro um mentiroso compulsivo, cuca fresca. Mas todos têm os seus momentos exaltados por causa do clima político, que é um dos mais naturais já visto no cinema. As pessoas conversam sobre política assim. E o filme nem toma lados, mas se diverte comentando ambos. A cena das formigas vermelhas é épica. Você precisa vê-la para sentir o humor brotando em um momento que qualquer verbalização colocaria tudo por água abaixo.

Imagens e créditos no IMDB.
Barcelona ● Barcelona. EUA, 1994. Dirigido, escrito e produzido por Whit Stillman. Com Taylor Nichols, Chris Eigeman, Tushka Bergen, Mira Sorvino. ● Nota: 4/5. Categoria: movies. Publicado em 2019-05-18. Texto escrito por Wanderley Caloni.


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