Barry Lyndon

Oct 18, 2013

Imagens

Stanley Kubrick era conhecido pela dedicação sobre-humana em seus projetos, fazendo com que vários deles se estendesse por anos a fio. Esse preciosismo é o que gerou trabalhos debatidos até hoje como se tivessem sido lançados nessa semana, denotando a aparente imortalidade de suas obras. Em Barry Lyndon, ao pretender contar a história do personagem-título, mas que está inserido em uma época sem eletricidade, resolve utilizar apenas a luz natural em suas tomadas, incluindo cenas noturnas iluminadas por velas. Por conta disso precisa de um filme ultrassensível, algo inédito e inovador. Além de desenvolver a tecnologia da fotografia para o Cinema consegue então um efeito surpreendente: os personagens parecem se mover por quadros pintados da época. É o fenômeno de uma arte estática ganhando vida através da arte do movimento.

Porém, estamos falando de Kubrick e sua equipe, que vai sempre além: utiliza uma trilha sonora criada exclusivamente com os instrumentos e o estilo da época, onde assume uma presença na maioria das vezes dentro da própria história, pois quando não está sendo de fato executada no salão musical de um castelo é fácil imaginá-la na cabeça daquelas pessoas, que não tinham muito com que se ocupar.

Sem nunca passar esse efeito de deslumbramento de estarmos dentro de uma máquina do tempo, entramos na história de fato, dividida em duas partes que tematicamente tratam de forma independente da ascenção e queda de Barry Lyndon e ao mesmo tempo serve de divisão das três horas de duração (existe uma mensagem de interlúdio entre as partes). Não tendo muitas perspectivas, Barry só possui a mãe nesse mundo (o pai morreu em um duelo) e logo moço arruma atrito com o pretendente de sua prima, por quem é apaixonado. Há um duelo entre os dois e Barry é obrigado a fugir e acaba por se alistar no Exército Inglês (que está em guerra) e tenta se manter vivo enquanto busca algo melhor. A partir de diversos golpes de sorte acaba por se casar com uma mulher rica e vira o personagem-título. Cada acontecimento na história é traduzida em uma narração em off e uma cena que explica tudo em poucos segundos. A genialidade do filme está em sua economia narrativa ao mesmo tempo que preenche seus acontecimentos em torno de minutos de contemplação inerte das cenas que formam quadros, representando a vida parada daquelas pessoas. Tanto a fotografia, já explicada, quanto a forma de filmar de Kubrick, quase sempre partindo de um plano fechado para uma paisagem quase que idílica, fornece pistas extremamente convincentes de que aquela realidade que presenciamos tem muito pouco a ver com a nossa. Acostumados a ver essa época idealizada e, de certa forma, modernizada em outros filmes, a abordagem aqui é muito surreal, ainda que equipada com a melhor e mais realista das intenções.

Curioso começa a ser a opinião do narrador, que entrega o mérito da escalada de Lyndon ao topo a ele mesmo, quando o que vemos é uma sequência totalmente caótica que graças a algumas coincidências o leva a sua posição privilegiada naquela sociedade. O sarcasmo e cinismo de Kubrick é detectável por diversos caminhos, mas todos eles são indissociáveis daquela narrativa que parece ser o caminho natural para entendermos aquele mundo.

O que dizer de sua visão cruel da guerra, ou das consequências de um tiro para aquela medicina tragicamente precária? Nada pode ser mais cínico do que a visão afastada desse anti-herói, que prefere não julgar, pois prefere contar suas aventuras tal como o leríamos nos livros de história. Se isso por si só não é o maior sarcasmo do filme, não sei o que é.

Wanderley Caloni, 2013-10-18. Barry Lyndon. Barry Lyndon (UK, 1975). Dirigido por Stanley Kubrick. Escrito por Stanley Kubrick, William Makepeace Thackeray. Com Ryan O'Neal, Marisa Berenson, Patrick Magee, Hardy Krüger, Steven Berkoff, Gay Hamilton, Marie Kean, Diana Körner, Murray Melvin. IMDB.