Batman O Cavaleiro das Trevas Ressurge

Aug 17, 2012

Imagens

O Batman de Nolan possui uma virtude cada vez mais ausente em produções Hollywoodianas de super-heróis: a capacidade de fazer pensar. O que é uma pena, já que o universo fantasioso em que se passam essas histórias tem potencial para ser o pano de fundo de questões filosóficas das mais diversas. No caso de Batman, O Cavaleiro das Trevas, a grande discussões que Nolan se propõe a fazer é com respeito à violência nas grandes cidades e como essa violência transforma o destino das pessoas que nela vivem.

No caso do órfão Bruce Wayne (Christian Bale), que é o protagonista, é fácil identificar que, além de representar o justiceiro na fictícia cidade de Gotham — mas que lembra muito Nova Iorque e outras megalópoles do mundo —, é também fruto da mesma violência que se dispõe a combater. E o medo dos habitantes dessa cidade tomam a forma de um morcego para Wayne, mas aos poucos percebemos que os outros personagens secundários, inclusive os vilões, tomam cada um para si uma maneira de conviver com esse medo. Até a “inocente” Selina (Anne Hathaway) arruma para si um disfarce que a transforma em uma sombra felina qualquer nos becos sujos da cidade, ignorada tanto pelo submundo do crime quanto da lei e da ordem.

E Nolan brinca bastante com essa dualidade bem e mal, como pode ser visto em determinado momento em que policiais e bandidos se enfrentam, e Nolan prefere não tomar partido de nenhum dos lados. Os heróis e vilões nascem e crescem naturalmente no ecossistema de Gotham. Se por um lado, o “bem” e a “paz” prevalecem no início de Batman, O Cavaleiro das Trevas Ressurge, o preço para isso é prender o mais banal dos suspeitos e cassar-lhe os direitos civis mais básicos. A mesma didática que recriou o medo de Wayne na figura assustadoramente semelhante do Coringa no filme anterior aqui se aplica na figura de Bane (Tom Hardy), um excluído da sociedade que alçou seu sucesso através dos esgotos de Gotham. Se o Coringa representa essa loucura sem escolha, uma loucura que é controlada na pele do homem-morcego, Bane representa a voz rouca e distorcida de Batman na versão sem controle e escolha.

Nesse ambiente nada saudável, é até natural que Alfred (Michael Caine), mordomo e pai de criação do pequeno Wayne, deseje que um belo dia seu patrão saia dessa paranoia e não volte nunca mais. No fundo, é o que desejamos para nós mesmos, moradores internos e externos das loucuras de uma cidade grande. Só que para isso há algo que Batman precisa fazer, como todo herói que se preze: se reerguer e se sacrificar. No entanto, diversas questões vem à tona aos mais inquietos: pelo quê? O que representam esses cidadãos amendrontados de Gotham, se não os mesmos acuados dos esgotos que tiveram alguma chance de sobrevivência à luz do sol? Há algo de especial na ordem geral das coisas que a torne superior?

As respostas para essas perguntas não fazem parte do roteiro do homem-morcego, apenas a sequência irretocável do seu retorno, que se esforça em nunca deixar que espectador saiba o quão fundo do poço se encontra o nosso Bruce (e daí vem sua força dramática, pois nós mesmos nunca sabemos o quão fundo vivemos). E é nesse universo sombrio e doentio que floresce uma luta sem causa e sem mérito. Onde nós, heróis e vilões anônimos, vamos sendo manipulados em pró da sobrevivência, somente. Não há glórias nesses céu e inferno.

Wanderley Caloni, 2012-08-17. Batman O Cavaleiro das Trevas Ressurge. The Dark Knight Rises (USA, 2012). Dirigido por Christopher Nolan. Escrito por Jonathan Nolan, Christopher Nolan, Christopher Nolan, David S. Goyer, Bob Kane. Com Christian Bale, Gary Oldman, Tom Hardy, Joseph Gordon-Levitt, Anne Hathaway, Marion Cotillard, Morgan Freeman, Michael Caine, Matthew Modine. IMDB.