Batman vs Superman: A Origem da Justiça

2016/04/02

Os deuses da DC descem do Olimpo para se exibir. Não há muito o que mostrar senão uma demonstração interminável de força, poder e loucura. São tempos sinistros para amantes dos quadrinhos, mas mais sinistros ainda para cinéfilos que se enveredam pelos filmes dessa trupe que gosta de se vestir engraçado.

“As capas vermelhas estão chegando… as capas vermelhas estão chegando…”, diz um Lex Luthor cuja insanidade é enfadonha e arrastada; aparentemente o último personagem notável de Jesse Eisenberb – Mark Zuckerberg, criador do Facebook – ainda não deixou o corpo do ator, que continua sem disposição de compor algo além do bandido caricatual e anti-social.

Mas isso não é exclusividade do único vilão do filme (os outros são derivações vindas de Lex). Tentando criar uma iconoclastia que tenta homenagear os heróis eternos Batman e Superman através de seus momentos mais sombrios nos quadrinhos, o diretor-fã Zack Snyder aponta para as encarnações de Ben Affleck e Henry Cavill como lendas vivas andando sobre um Planeta Terra cínico e sem esperança. Suas capas estão longe de serem vermelhas, e seus olhares, longe de representarem os heróis carismáticos que estamos acostumados a ver em produções da Marvel.

E se estendermos essa visão para o elenco de suporte encabeçado pelos talentosos Amy Adams, Laurence Fishburne e Jeremy Irons, veremos o quanto foi sacrificado da simpatia desses personagens em prol de uma visão cada vez mais sombria do universo habitado por essas figuras que tentam ser realistas em sua física, mas se tornam vazias se observarmos sua humanidade.

Citei os deuses do Olimpo no começo desse texto, mas me arrependo agora. Os deuses gregos possuíam conflitos, personalidades e temperamentos que o tornavam representações infinitamente mais humanas que os conflitos que “Superman vs Batman” apresenta aqui. Este é um show pirotécnico de um drama movido por uma tensão artificialmente e eternamente mantida pela orquestra do Sr. Hans Zimmer, responsável por recriar o tema de Superman em “Homem de Aço”, e aqui responsável por tentar pontuar cada uma das participações de não dois, mas três heróis, que tentarão ser os pilares de futuras e infinitas continuações desse universo que começa a emergir. A trilha sonora é uma das melhores coisas do filme, mas isso não justifica usá-la em todos os momentos em que o filme fica fraco (e não são poucos).

E não importa muito que Ben Affleck e Henry Cavill possuam presença de cena e recriem esses personagens de uma maneira ligeiramente diferente dos antecessores e naturalmente interessantes por mais uma variação nos cinemas. Ben Affleck, principalmente, toma para si a responsa de continuar o “trabalho” de Christian Bale, uma tarefa ingrata, mas que ao mesmo tempo trouxe uma surpresa: Batman, assim como James Bond, não precisa manter sempre a mesma cara. Estamos falando da luta eterna contra o crime, um processo que sempre irá existir. Talvez não seja preciso reviver a tragédia do órfão Bruce Wayne toda vez que um novo Batman encarna o arquétipo do morcego, mas, enfim, tudo pelo show.

E se Henry Cavill já demonstrou em seu debut como O Homem de Aço que pretende destoar do eterno Christopher Reeve em gênero, número e grau, aqui ele empalidece por suas poucas e enigmáticas aparições, algo que fica claro quando conversa com o seu pai adotivo, já morto, mas que demonstra que Kevin Costner em cinco minutos consegue roubar todo o pouco carisma de Cavill no filme inteiro.

Quem se sai melhor nesse trio acidental é a personagem feminina, que podemos já chamar de Mulher Maravilha das trevas. Embora com um tema musical levemente irritante – talvez por tocar todas as vezes que ela entra em ação – a encarnação de Gal Gadot, da série Velozes e Furiosos, é uma retomada da heroína em décadas, e pela pouca participação deixa um pouco de saudade. Provavelmente ela se tornará ainda mais interessante em seu filme-solo a ser lançado.

Não há muito o que contar da trama. Ela é confusa, banal, e gira em círculos para conseguir mais tempo com efeitos visuais impressionantes (há tantos efeitos, que uma sequência inteira envolvendo homens-voadores com aspecto de insetos é rodada para justificar um dos pesadelos que Batman anda tendo com sua preocupação com o Homem de Aço e seu poder ilimitado). A exceção fica por conta da discussão de quais os limites desses heróis, um tema interessante já abordado com muito mais propriedade do mais maduro Watchmen (curiosamente dirigido por um Snyder mais jovem). A sequência em Washington mereceria aplausos se estivesse ligada à alguma trama maior, como em X-Men 2, mas, como a maioria das cenas, ela está ligada a um roteiro burocrático e arrastado que nos faz imaginar a sala dos roteiristas e a pressão vinda de todos os lados para agradar a todos.

E, surpresa, os roteiristas são apenas dois: David S. Goyer, já responsável pela série do Cavaleiro das Trevas e Homem de Aço, e Chris Terrio, que já está cotado para a Liga da Justiça, mas tem pouca experiência com esse mundo. A dupla faz um bom trabalho de reintrodução de personagens já conhecidos, mas para evitar tornar tudo mais confuso ainda evita criar qualquer trama original nas duas horas e meia do filme.

Com uma fotografia apropriadamente escura, um 3D obviamente descartável e efeitos visuais de tirar o chapéu, “Batman vs Superman” se baseia inocentemente em detalhes joviais dos dois heróis – como o nome em comum de suas mães terrenas – para tentar contar o máximo de história que conseguirem sem se importar com a trama. Isso vem da sede dos fãs em cada vez mais ação, mais porrada e mais quadrinhos. Agora resta aguardar até que todos cansem dessa fórmula pesada demais para um filme de super-herói e comece a explorar ou filmes mais divertidos ou filmes que sejam realmente mais maduros. E não um filme com tanta violência velada que parece não estar à altura dos heróis que quer representar na tela.

★★★☆☆ Batman v Superman: Dawn of Justice. USA, 2016. Direction: Zack Snyder. Script: Chris Terrio. David S. Goyer. Bob Kane. Bill Finger. Jerry Siegel. Joe Shuster. Cast: Ben Affleck. Henry Cavill. Amy Adams. Jesse Eisenberg. Diane Lane. Laurence Fishburne. Jeremy Irons. Holly Hunter. Gal Gadot. Edition: David Brenner. Cinematography: Larry Fong. Soundtrack: Junkie XL. Hans Zimmer. Runtime: 151. Ratio: 1.44 : 1. Gender: Action. Category: movies Tags: cinema dceu

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