Beasts of No Nation

2016/03/11

Esse filme é um misto do cinema naturalista de Hector Babenco em “Pixote” (1981) e o imaginário de Buscapé em Cidade de Deus (Fernando Meirelles, 2002). De brinde, nos traz Abraham Attah como o pequeno e hipnotizante Agu, um menino que tem sua família separada e destroçada e é arrastado para uma pequena milícia que aplica operações sanguinárias, ordenadas por um sistema de fantoches financiado por capital estrangeiro.

O país – ou região – onde isso se passa, é desconhecido. Pode ser próximo da Nigéria, pois seu exército aparece nos primeiros minutos em cena. Pode não ser. A questão é: o que importa? O continente africano e seu povo nunca foram estruturados para se comportarem como países, mas a colonização europeia deu conta dessa divisão artifical. Agora tribos são saqueadas e seres humanos são mortos e estuprados por grupos armados que se comportam de maneira mais mortífera que os animais da savana, e com objetivo bem mais injustificáveis.

Esse filme é capaz de exaltar alegria a ponto de rirmos sozinhos em seus primeiros minutos, vendo os moradores de um pequeno vilarejo dançarem despreocupados, e meia-hora depois nos estarrecer pela crueldade de outros seres humanos, e por tudo isso estar sendo vivido por uma criança, que questiona qual será o julgamento de Deus perante seus atos. É uma experiência que apela para nossas emoções mais primitivas, e que consegue nunca perder o fio da meada da história que pretende contar.

O diretor/roteirista Cary Joji Fukunaga consegue fazer um trabalho tão intimista quanto universal. Realizando uma ficção que narra como se fosse um documentário em tempo real, os pequenos detalhes que visualmente são mostrados – como o fato de que Agu sozinho na floresta logo morreria de fome – são o suficiente para ser inserido em uma atmosfera de desesperança e talvez de revolta.

Escalando facilmente um sistema brutal e primitivo que representa fielmente a máxima “a lei do mais forte”, Beasts of No Nation quase beira a drama shakespeariano com as decisões envolvendo o alto escalão do exército improvisado, e quase beira o naturalismo nas sequências de pura violência sem floreios e sem cortes. É um conjunto de estilos que funciona tão bem que em diversos momentos não nos sentimos em um filme, mas em uma realidade tristemente próxima de nós, no tempo e espaço. E a todo momento surge a pergunta inevitável: tinha que ser uma criança?

Pois é justamente esse o motivo. Se não estivéssemos falando de um personagem puro, que é obrigado a vivenciar uma realidade alternativa de violência animal, o filme não teria tanto impacto. E é justamente esse o motivo que torna o filme tão triste quando saímos dele para refletir sobre a vida: nós sabemos que ele é real em algum lugar da Terra. Nesse momento.

★★★★★ Beasts of No Nation. USA, 2015. Direction: Cary Joji Fukunaga. Script: Cary Joji Fukunaga. Uzodinma Iweala. Cast: Abraham Attah. Emmanuel Affadzi. Ricky Adelayitor. Andrew Adote. Vera Nyarkoah Antwi. Ama K. Abebrese. Kobina Amissah-Sam. Francis Weddey. Fred Nii Amugi. Edition: Pete Beaudreau. Mikkel E.G. Nielsen. Cinematography: Cary Joji Fukunaga. Soundtrack: Dan Romer. Runtime: 137. Ratio: 2.35 : 1. Gender: Drama. Category: movies

Share on: Facebook | Twitter | Google