Beira-Mar

Chamar Beira-Mar de “cinema-gay” já parece de cara uma grande injustiça. Já há na cinematografia atual muitos exemplos de homossexualidade, transsexualidade e até bi-sexualidade (sem contar, é óbvio, a heterossexualidade, responsável por 99,99% dos filmes). No entanto, o que vemos em termos de atração sexual no filme sequer conseguiria ser resumido em uma posição no grau de atrações de um ser humano, quiçá nem se resume a sexo. Há muitas nuances no trabalho da dupla de diretores (e roteiristas) Filipe Matzembacher e Marcio Reolon; o suficiente para tornar essa caracterização não apenas difícil, mas inútil.

Protagonizado pela competente dupla Mateus Almada e Maurício Barcellos, eles criam essa relação difícil de classificar entre seus personagens Martin e Tomaz, amigos que viajam para resolver um problema na família de um após o falecimento do avô. Juntos, passam o tendo ou entediados, ou se divertindo com amigos casuais, ou falando sobre a vida e experiências passadas. Eventualmente há o ar de inquietação, mas este é tão sutil que fica difícil sequer lembrar dos momentos em que ele ocorre.

A câmera sempre na mão e os artifícios da subjetividade (câmera atrás do ator), separação de elementos por foco (onde muito do que acontece fora de foco também tem sua importância) e uso do zoom para fixar nossas atenções nos personagens, nunca no cenário ou no que estão fazendo (seja jogar vídeogame ou serrar um pedaço de madeira) garantem que este será um trabalho intimista cuja intenção está claramente em interpretar diálogos e situações ambíguas, ainda que nessas situações nada ocorra, exceto talvez na imaginação do espectador. Dando tempo suficiente para que entendamos onde o filme quer chegar, fica fácil superar a estranheza de “filme lento” e dar vazão ao ritmo próprio do trabalho da dupla de diretores, pois o assunto é deveras interessante e não há um momento sequer que podemos simplesmente jogar fora. Tudo parece relevante, e nada ao mesmo tempo. É essa a ambiguidade poderosa que quase consegue se materializar em torno dos personagens.

Brincando com pequenas homenagens incidentais como Azul é a Cor Mais Quente (pelo cabelo azul de um dos garotos) ou até O Segredo de Brokeback Mountain (mais pelo tom intimista, mas também pelo ar de velho-oeste, principalmente na sequência da visita à casa da família), Beira-Mar mantém sua força justamente nessa metáfora entre terra e água. Beira-Mar como local é aquela mescla entre mar e terra que às vezes coincide em uma praia. A sexualidade humana, da mesma forma, quase nunca se situa fora dessa praia metafórica, preferindo molhar os pés de vez em quando, ou até engolir um pouco de terra.

★★★★★ Wanderley Caloni, 2015-10-02. Beira-Mar. Beira-Mar (Brazil, 2015). Dirigido por Filipe Matzembacher, Marcio Reolon. Escrito por Filipe Matzembacher, Marcio Reolon. Com Mateus Almada, Ariel Artur, Maurício Barcellos, Irene Brietzke, Elisa Brittes, Maitê Felistoffa, Francisco Gick, Fernando Hart, Danuta Zaguetto. imdb