Beleza Oculta
Wanderley Caloni, 2017-03-01

Will Smith se especializou em histórias que o trazem como um heroi carismático que esconde isso por trás de uma máscara de dor e sofrimento. Filmes ótimos com ele como À Procura da Felicidade e Eu Sou A Lenda fazem isso com louvor. Filmes medíocres como Hancock (onde ele é não um heroi, mas um super-heroi) fazem isso no automático. E até filmes ruins como Sete Vidas e Esquadrão Suicida fazem isso de uma forma ou de outra, se entregando às lágrimas fáceis (se você estiver disposto a isso). Então não seria errado pensar que em Beleza Oculta estamos revisitando novamente esta persistente faceta da persona do ator, que está conseguindo realizar este trabalho cada vez mais próximo da perfeição.

Infelizmente é uma perfeição desperdiçada por um conto simétrico e redondinho que parece evitar a menor complicação em sua narrativa. Se trata de uma pessoa traumatizada pela morte da filha, antes uma pessoa de sucesso, hoje apenas sua sombra. Ele tem três bons amigos em sua empresa que buscam salvá-la – além de suas próprias vidas financeiras – mesmo arriscando sua amizade e trazendo para sua realidade seus delírios juvenis de estar de birra com três elementos da vida que antes eram seus “companheiros”: Morte, Tempo, Amor.

A “coincidência” é que para cada um desses elementos eles acham um ator que o interpreta em carne e osso, na mesma trupe de atores, coincidentemente quando seu sócio segue uma candidata de comercial talentosa. Coincidentemente também cada um deles se aproxima dos três amigos de Will Smith, e cada um deles possui problemas pessoais que precisam ser resolvidos. Melhor que isso, só a “coincidência” de Smith encontrar uma jovem bonita (Naomie Harris) em um grupo de apoio a pais que perderam seus filhos. Ela também perdeu uma filha, inclusive com a mesma idade.

Mas não sejamos injustos. Beleza Oculta nunca se veste como uma trama rebuscada que irá trazer reviravoltas inesperadas. Até porque tudo em um filme de Will Smith é esperado. E quando nos reservamos o direito de nos deixar sermos enganados, a surpresa geralmente é boba e não gera maiores sensações. Então, pra que se dar so trabalho?

O filme usa um elenco de luxo em papéis simplistas que fazem pensar o que Kate Winslet, Helen Mirren e Edward Norton estão fazendo aqui? Norton é um sócio com um misto entre “ele se importa” com “que cara sacana” (e faz isso muito bem com o que lhe é entregue). Winslet está usando todo seu charme dramático em uma personagem que não possui sequer dez minutos de tela. E Mirren, charmosa como sempre, faz bom uso de seus papéis. Mas aqui, assim como em R.E.D., está no automático.

Isso sem contar os coadjuvantes igualmente de luxo. Apesar de não gostar das caras e caretas de Keira Knightley, acho que concordamos que ela nem merecia estar em um filme desses (se bem que, lembrando de “Procura-se um Amigo para o Fim do Mundo”… talvez merecesse). Michael Peña tenta em suas pontas fazer um vitorioso que luta com uma doença rara que dessa vez o está vencendo, mas o máximo que o roteiro lhe entrega são momentos de intimidade com a privada. Peña também se dá ao trabalho de tossir copiosamente (quando há tempo para isso).

Este é um roteiro encomendado de Allan Loeb (do ótimo Coincidências do Amor) que é entregue à direção de David Frankel (O Diabo Veste Prada, Marley & Eu), que realiza um trabalho burocrático, cheio de transições sem sentido (apesar de elegantes), que deixa a trilha sonora irritantemente clichê de Theodore Shapiro tomar conta do ambiente conforme avançamos para o final. Talvez este seja o único que tenta gritar para si mesmo, já que tanto fotografia e direção ficam apenas corretos e facilmente esquecíveis. Não há a menor pretensão de tentar explicar por que aqueles dominós são de diferentes cores.

Assim como não há a menor pretensão de explicar se há algo por trás da história exceto mais um pano de fundo para vermos Will Smith jogar toda sua simpatia e seus olhos vermelhos em mais um trabalho guiado pela emoção, e onde seus fãs possivelmente encontrarão consolo. Já os cinéfilos… esses provavelmente irão seguir o protagonista, enviando cartas mal-educadas para o Tempo. Esse tecido em decomposição que não regenera…

★★★☆☆ Collateral Beauty. USA. 2016. Direção: David Frankel. Roteiro: Allan Loeb. Elenco: Will Smith (Howard), Edward Norton (Whit), Kate Winslet (Claire), Michael Peña (Simon), Helen Mirren (Brigitte), Naomie Harris (Madeleine), Keira Knightley (Amy), Jacob Latimore (Raffi), Ann Dowd (Sally Price). Edição: Andrew Marcus. Fotografia: Maryse Alberti. Trilha Sonora: Theodore Shapiro. Duração: 97. Aspecto: 2.35 : 1. Drama. Estreia no Brasil: 26 January 2017. #cinema #emcartaz