Belos Sonhos

2016/12/19

Para fãs de filmografias que abusam da iconografia do cinema italiano como “A Primeira Coisa Bela”, “Belos Sonhos” é um prato cheio. Porém, fugindo um pouco do dinamismo, este é um drama psicológico que irá fazer você repensar como o Cinema consegue demonstrar caminhos em sua narrativa sem fazer os personagens abrirem a boca de maneira artificial. Quase tudo de importante no filme é visual, é simbólico, metafórico, e metalinguístico. Um primor de como cinema é sobre o que vemos.

Claro que ele também é muito inchado. O diretor, Marco Bellocchio, se deixou seduzir pela grandiosidade do tema: a relação entre o filho e sua mãe. Na Itália. Onde a mama é sagrada, ele a perde ainda na infância. E da pior forma possível. Sem saber o que fazer a partir daí, acompanhamos a vida de Massimo em diferentes fases, conforme ele vai tentando fazer o melhor que pode com o que restou da afeição e cuidados do único ser que lhe deu carinho: sua bela, jovem mãe.

O filme já começa a soar universal quando descobrimos que apenas Massimo tem nome. Seu pai e mães, não. Todo o filme gira em torno dele, pois este é um drama psicológico, que se passa dentro da cabeça do protagonista. O que vemos como espectador é o que ele vê em sua vida. Os símbolos, como as estátuas imponentes de Turim, que fazem eco com as miniaturas no escritório do pai, denota a formalidade e o distanciamento com que ele foi criado por este (o que lhe gerou maiores problemas de relacionamento). O fundo do poço é quando, repórter, depois de ser promovido ao testemunhar em primeira mão o suicídio de um figurão, é enviado a Sarayevo e testemunha seu fotógrafo manipulando uma cena que junta dois personagens como mãe e filho. Totalmente desconectado do mundo, participa de uma noite de folga com modelos.

A fotografia de Daniele Ciprì é uma coisa de outro mundo. No início usando a luz e sombra para transformar os momentos a dois entre mãe e filho tão especiais que podem ser enquadrados e pendurados na parede, mas ao mesmo tempo sonhados, o trabalho de Ciprì é onírico, embora vá utilizando paletas um pouco mais sombrias, ou cinzentas, conforme Massimo vai perdendo as esperanças de ter uma vida feliz.

Enquanto a interpretação de Valerio Mastandrea como Massimo adulto ganha feições sutis, com sua cabeça semi-cabisbaixa, seu jeito quieto e sua forma de olhar desesperada, procurando por uma conexão no mundo, embora nunca consiga de fato ser ele próprio, é Massimo jovem, por Nicolò Cabras, que confirma toda a iconografia italiana, como o garoto estereótipo perfeito como representante da infância onírica que fazia parte antes de sua mãe partir. Já Bérénice Bejo, como Elisa, faz um trabalho relativamente fácil, se comparado com seu outro filme esse ano, A Economia do Amor.

Se estendendo levemente acima do permitido, e inchado levemente acima do que a grandiosidade do projeto permite, Belos Sonhos ainda se torna uma boa lembrança do cinema italiano, esse cinema nostálgico, que não renova, mas reinterpreta seu passado, patinando nos mesmos temas, mas mostrando como sempre, que seu charme é inabalável.

★★★★☆ Título original: Fai bei sogni. País de origem: Italy. Ano 2016. Direção: Marco Bellocchio. Roteiro: Massimo Gramellini. Valia Santella. Edoardo Albinati. Marco Bellocchio. Elenco: Bérénice Bejo (Elisa). Valerio Mastandrea (Massimo). Fabrizio Gifuni. Guido Caprino (Padre di Massimo). Barbara Ronchi (Madre di Massimo). Dario Dal Pero (Massimo adolescente). Nicolò Cabras (Massimo bambino). Emmanuelle Devos. Pier Giorgio Bellocchio. Edição: Francesca Calvelli. Fotografia: Daniele Ciprì. Trilha Sonora: Carlo Crivelli. Duração: 134. Razão de aspecto: 2.35 : 1. Gênero: Drama. Tags: cabine

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