Bem-Vindo a Nova York

Devereaux, o personagem de Gérard Depardieu em mais um papel memorável, é um intelectual que está no topo da cadeia do mercado financeiro e que ainda é casado com uma esposa bilionária. Por onde passa espalha admiração. É um senhor fisicamente grande e desengonçado, mas educado e cordial. Fora isso é um pervertido sexual que simplesmente não consegue se controlar diante de uma mulher, e é isso que abala completamente as estruturas sociais de sua vida bem-sucedida.

A direção de Abel Ferrara (Vício Frenético e Olhos de Serpente, ambos com Harvey Keitel) e o roteiro co-escrito com Christ Zois conseguem prender 100% de nossa atenção durante todo o desenrolar inicial quase sem diálogos. A introdução passa por longas cenas de sexo que são necessárias para a narrativa – diferente de “Azul é a Cor mais Quente”, o soft-porn premiado em Cannes. Os acontecimentos eróticos vão aos poucos revelando o aspecto doentio e asqueroso do protagonista, que quase previsivelmente fulmina em um processo judicial longo e doloroso. A consequência disso para o filme são incursões filosóficas sobre diversos temas envolvendo os óbvios riqueza e poder, mas também derivados mais interessantes, como corrupção e imoralidade. É fato que essas pessoas não prestam em praticamente nenhum aspecto de suas luxuosas vidas, mas assim como Scorsese em O Lobo de Wall Street, o papel de julgar fica por conta do espectador: as cartas de ambos os lados estão abertas na mesa.

O influente e inteligente Monsieur Devereaux atingiu em sua carreira uma síntese pragmática ao ignorar toda a assimetria financeira que gira em torno do mundo ao desistir de seus ideais acadêmicos (além de seu próprio caráter). Diferente de sua esposa Simone (Jacqueline Bisset), que nunca teve as aspirações platônicas do marido, mas que ao menos possui um objetivo aparentemente claro na vida: obter cada vez mais poder e influência. Esse dueto que duela sem vítimas temas dos mais batidos em sequências teatrais encontra uma certa necessidade de existir no mundo como o encaramos hoje. Afinal, a massa que idolatra é a mesma que apedreja cinco minutos depois. O ser humano que ninguém conhece parece ganhar o aval de todos por onde passa e o direito de ser um canalha. Quando a verdade é revelada, o mesmo canalha mal se surpreende quando é repreendido por uma sociedade sedenta por sacrifícios simbólicos que provem que o ser humano não é tão vil e odioso assim. Tudo o que queremos é manter vivo nossos ideais, por mais que estes permaneçam cada vez mais apenas no território das ideias, não valendo muito como moeda de troca nas ruas frias e escuras.

Afinal, se há uma mensagem uníssona em Bem-Vindo a Nova York é: quem se importa? Depois de assistir esse filme, talvez seja a única coisa que todos nós concordemos.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2014-09-11. Bem-Vindo a Nova York. Welcome to New York (USA, 2014). Dirigido por Abel Ferrara. Escrito por Abel Ferrara, Christ Zois. Com Jacqueline Bisset, Gérard Depardieu, Amy Ferguson, Drena De Niro, Paul Calderon, Paul Hipp, Maria Di Angelis, Ronald Guttman, Natasha Romanova. imdb