Better Call Saul - Primeira Temporada

A primeira temporada de Better Call Saul, spin-off do personagem Saul Goodman da série Breaking Bad, realiza um arco tão lendário quando o Walter White da série original. Esse arco é mais simples, previsível em sua própria estrutura, mas simplório jamais. Oscilando entre o cômico e o dramático, ganha mais o espectador que encara tudo aquilo como um drama tão intenso que consegue soar às vezes caricato, mas no final acaba se transformando em um tema digno de reflexão: como pode um sujeito ser esmagado de tantas formas diferentes e, ainda assim, continuar resistindo?

É óbvio que, idealizado pelo mesmo Vinge Gilligan de Breaking Bad e sua inteligente equipe, essa primeira faceta antes desconhecida de Saul, ou em seu nome original, James McGill, irá certamente formar o alicerce moral do sujeito para futuras temporadas. Porém, mesmo que tivéssemos visto o último episódio ever da história, esta poderia muito bem acabar dessa forma e não soaria incompleta, da mesma forma que a maioria das temporadas de Breaking Bad (particularmente a quarta).

O primeiro episódio é mais sério e dramático (o único dirigido por Gilligan), e já determina o tom de prequel ao mostrar o final trágico do advogado no anonimato e sempre temendo pela sua vida, o que gera pelo menos dois problemas, um visível de cara e outro escondido no resto dos episódios: 1) se você já assistiu a série original (ainda recente) tomou um spoiler de início (ele não vai morrer), 2) o destino do personagem não acrescenta em nada sua trajetória da primeira temporada (talvez isso se resolve no final da série, veremos).

O segundo episódio já é dirigido por Michele McLaren, uma das minha favoritas em Breaking Bad (outro é Rian Johnson, de Looper). A partir daí felizmente a série já assume o seu lado cômico vindo das trevas, ou o mais conhecido humor negro. O primeiro acordo/caso de Saul/Jimmy no mundo do crime envolve o código de Hamurabi – um dos códigos morais mais antigos do mundo – com (spoiler!) Tuco tentando decidir entre matar dois jovens ou quebrar-lhes as pernas. É lindo perceber a mudança no discurso do futuro Saul durante a conversação no deserto, assim como ironicamente a criação de um advogado em defesa de seus “clientes”.

A partir dali a série se arrasta um pouco além do devido, mas nada que se pode chamar de erro grave. Há até momentos ou um episódio inteiro com o personagem secundário de Mike (o sempre ótimo Jonathan Banks) que poderia ser acusado de “encheção de linguiça”, mas que é tão necessário para esse outro personagem memorável da série original que serve como uma desculpa perfeita. Além do mais, o brilhantismo em criar rimas e gags visuais com o trabalho original vai além da mera homenagem para a criação de algo novo em torno do protagonista de Bob Odenkirk que, sejamos justos, não faz uma grande atuação, mas é dono de um grande personagem e o sabe levar como ninguém. É dele uma das homenagens cinematográficas já costumeiras da equipe de Breaking Bad (“Here’s Johnyy!”).

Melhor do que isso são as pistas no início de cada episódio que são esquecidas justamente pela jogada dos diretores de cada vez mais inserir preciosismos narrativos. Cada episódio é uma mini-história em si mesma, cativante e fácil de acompanhar. É seguindo essa fórmula que, por exemplo, o episódio Hero consegue avançar na psique do personagem mostrando os golpes que este praticava e ao mesmo tempo realiza uma rima belíssima. Da mesma forma o episódio Bingo, mesmo relevando uma solução para um problema mais extenso na história, acaba trazendo na conclusão os melhores momentos de um casal de picaretas.

Pecando apenas levemente em exagerar no óbvio no penúltimo episódio onde uma “revelação” já era pelo menos sentida pela maioria dos espectadores em relação ao irmão de Jimmy, e até no último episódio em insistir na situação de saúde de um personagem, é um resumo mais do que satisfatório, pois entrega ambos os lados de um sujeito que, tragicamente como seu cliente mais famoso (Heisenberg), também não consegue deixar de ser ele mesmo e se sentir bem a respeito independente disso cruzar algumas barreiras morais.

★★★★★ Wanderley Caloni, 2016-04-22 imdb