Better Call Saul - Terceira Temporada

2017/07/03

O espírito de Better Call Saul é o mesmo de Breaking Bad. A moral de seus personagens frequentemente oscila entre o aceitável e o criminoso. Porém, enquanto em Breaking Bad as ações de Walter White paulatinamente caminhariam em direção a atos que, sem sombra de dúvida, o deveria colocar por detrás das grades, este spin-off com o advogado da série original como protagonista nunca chega nesse nível, preferindo trabalhar a ambiguidade e a forma torta da justiça na vida real, onde às vezes – ou quase sempre? – as decisões dependem mais da narrativa e menos dos fatos.

Nesta temporada acompanhamos o processo entre Jimmy McGill e seu irmão, em sua derrocada final na série. O personagem construído por Michael McKean é um hipocondríaco antipático ao mesmo tempo que se revela um profissional brilhante. Porém, ele não é apenas competente, mas procura sempre deixar claro que leva a lei tão a sério, ou sagrada, quanto uma religião, o que faz com que o espectador solte uma pontinha de simpatia por ele, ou ao menos pela sua integridade moral. É claro que, assim como seu irmão mais novo, ele utiliza das ferramentas em sua volta para fazer valer seus objetivos, e se estes são ou não legalmente válidos, isso se torna menos relevante do que o próprio embate em família.

Mas ao mesmo tempo nosso anti-herói, James McGill é, de acordo com Bob Odenkirk, uma persona ao mesmo tempo de moral frágil e um coração humano. Isso o torna o perfeito oposto do seu mais cerebral irmão, e ganha a simpatia do público quase que instantaneamente. Jimmy também possui um desejo de exercer a lei, mas a série vai nos deixando cada vez mais inconfortável com os métodos que utiliza. Ele está sobrevivendo como um animal acuado nessa temporada, e faz de tudo para dar a volta por cima. Estamos acostumados a ver isso dos advogados em filmes e séries, mas a temática de Breaking Bad é tão realista que somos levados a acreditar que a justiça é, sim, algo de peso na série.

Conseguindo encher linguiça de maneira eficiente através de seus não-tão-secundários personagens, que vão se acumulando em homenagens à série principal, vamos aos poucos reencontrando através da linha narrativa de Mike (Jonathan Banks) o submundo do tráfico, que vai se tornando, assim como em BB, mais corporativo, embora com o mesmo tom de ambiguidade. A atração inicial é a rivalidade entre Hector Salamanca (Mark Margolis) e Gustavo Fring (Giancarlo Esposito), mas empalidece frente à atuação hipnótica de Jonathan Banks, que apenas observa, mas que ganha o público em pequenas ações, como ao descobrir que estava tendo seu carro grampeado.

O fato é que o criador e um dos diretores, Vince Gilligan, parece continuar se divertindo com a atmosfera Breaking Badiana, mas não consegue se desvencilhar de uma série que se arrasta, ainda que elegantemente, em direção ao que todos esperamos. Se ela for arrastada por mais algumas temporadas é capaz que as coisas fujam do controle criativo de Gilligan. Portanto, espero que ele tenha, assim como em BB, configurado corretamente cada final de temporada para que elas sejam como esta: a série pode acabar por aqui. Mas quem gostaria disso?

★★★★☆ Better Call Saul. USA, 2015. Direction: Vince Gilligan. Thomas Schnauz. Adam Bernstein. Peter Gould. Colin Bucksey. Larysa Kondracki. Terry McDonough. John Shiban. Script: Vince Gilligan. Peter Gould. Gordon Smith. Ann Cherkis. Gennifer Hutchison. Thomas Schnauz. Jonathan Glatzer. Heather Marion. Cast: Bob Odenkirk (Jimmy McGill). Jonathan Banks (Mike Ehrmantraut). Rhea Seehorn (Kim Wexler). Patrick Fabian (Howard Hamlin). Michael Mando (Nacho Varga). Michael McKean (Chuck McGill). Edition: Skip Macdonald. Kelley Dixon. Chris McCaleb. Curtis Thurber. Cinematography: Arthur Albert. Marshall Adams. Soundtrack: Dave Porter. Runtime: 46. Ratio: 1.78 : 1. Gender: Crime. Release: 9 February 2015 (internet). Category: blog Tags: netflix bettercallsaul series

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