Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)

2015/03/13

Antes de falar sobre Bidman, vamos aproveitar para tirar um elefante branco da sala: o plano-sequência. O que são? O que comem? Como se reproduzem?

Sem querer entrar no mérito do que é um plano e o que é uma sequência, vamos entender a técnica através do que falta em um plano-sequência: o corte. Cortar no cinema você já conhece: é quando o diretor está satisfeito com a duração da cena que estão filmando e grita “corta!”. No caso da película isso é literal. Ela é cortada e depois colada com a próxima cena.

Como você faz para não cortar uma cena?

Existem várias técnicas hoje em dia no computador que não vêm ao caso. Apenas tenha em mente que não é fácil se não houver uma pausa no movimento da câmera ou um momento em que o que estiver sendo mostrado possa ser o início da próxima cena, como uma parede, por exemplo. No caso de Birdman repare que existem dois movimentos na câmera que funcionam muito bem como uma pausa sem ter que existir o corte:

  1. Quando o protagonista entra ou sai do bar (e há um escuro entre o dentro e o fora do bar);
  2. Quando a câmera enquadra o céu e a noite vira dia (a passagem do tempo acelerada é um efeito em si mesma).

Podem existir momentos mais elaborados para cortar, mas isso irá exigir mais aprimoramento técnico ainda dos produtores. Veja, por exemplo, a sequência memorável da perseguição em Filhos da Esperança, quando acompanhamos toda a ação de dentro de um carro que realiza as mais diversas manobras. Ou da perseguição do suspeito em um estádio de futebol em O Segredo dos Seus Olhos.

Birdman não foi o primeiro filme filmado como se fosse um gigantesco plano-sequência. Trabalhos muito mais desafiadores no sentido de não haver cortes foram feitos. A Arca Russa é um trabalho filmado todo em plano-sequência sem nenhum tipo de corte. Foi necessário produzir um sistema de gravação em HD para conseguir conter o filme inteiro em apenas uma tomada. Já Birdman, como vimos, possui diferentes formas de realizar o corte escondido. Porém, “puro” ou não-puro, a problemática da produção é algo que, assim como o filme original, fica na sala de edição. No fundo, ele nunca existiu. O que vale é o produto final, ou o que o espectador sente. E ele sente, tanto em Birdman quanto em A Arca Russa, que a ação não parece parar nunca.

Agora, se isso tecnicamente é um desafio, artisticamente deve existir um bom motivo para ser feito. Do contrário, para que fazê-lo? E de fato, Birdman conta a história de um ator que não é levado a sério pela crítica – nem por si mesmo – por ter sido o astro de uma série de filmes de um super-herói que voa: o Birdman do título. O mais curioso é que o filme brinca o tempo todo com metalinguística, um outro assunto fascinante a respeito de Cinema, que é usar o próprio Cinema como fonte da narrativa. Por isso é que faz todo o sentido o ator que interpreta Birdman, ou Riggan, ser Michael Keaton, o protagonista dos dois primeiros Batman de Tim Burton.

Porém, ainda não respondi à pergunta. A questão do plano-sequência é que Birdman trata desse ator em processo de construção de uma peça que pretende limpar para ele esse passado “não-artístico”. Peças de teatro acontecem em tempo real, com os atores contracenando naquele momento em que o espectador está assistindo. Isso traz um realismo que o Cinema pode apenas emular através, por exemplo, do plano-sequência. No teatro não há cortes, apenas divisões em capítulos (ou atos). O plano-sequência emula essa falta de pausas na ação, e lembra também reportagens de TV em que há apenas uma tomada durante a ação, geralmente com a câmera tremendo (quando há movimento).

Além do mais, isso traz um sentimento de imediatismo. E para Riggan há um imediatismo claro: ele está ficando velho, o tempo está acabando para ele, e ele ainda não foi levado a sério como ator. Curiosamente, os personagens que o cercam são interpretados por atores que já fizeram parte desse mundo de super-heróis, só que mais atuais. Edward Norton, o ator de sucesso, fez O Incrível Hulk. E Emma Stone é o par romântico do mais novo Homem Aranha. Porém, mais significativo ainda é colocar Naomi Watts, que teve um começo em Hollywood de maneira semelhante ao filme Cidade dos Sonhos (David Lynch, 2001): uma garota fascinada pelas luzes. Aqui, Watts faz a “garota” que finalmente conseguirá estrear na Broadway.

De uma forma ou de outra, Birdman é uma gigantesca crítica aos filmes que exploram as sensações baratas dos efeitos digitais, mais notadamente os filmes de super-heróis. Na verdade, vai mais além e critica o próprio público que se acomoda em torno desses filmes e não procura nada além. Veja bem: o título do filme é Birdman, mas ele vai reconhecidamente ser refutado pelo público como um “filme de arte” (como se todo filme não o fosse). Maior estigma para ele será ter ganho o Oscar de melhor filme. A Academia tem se arriscado mais que o normal nesses últimos anos, aparentemente. Ledo engano: Birdman é um filme fácil. Apesar de suas esquisitices narrativas muito bem-vindas, ele é uma homenagem à arte e ainda constrói uma trama inteligível pelo público médio. Ainda assim, mantém diversos conceitos, argumentos e filosofadas em suas entrelinhas, de forma que ele pode funcionar de maneira eficiente para diferentes tipos de audiência.

Portanto, se há um “filme de arte” apenas que você pode assistir esse ano, tenho uma boa notícia: há duas ótimas oportunidades. Birdman ou Boyhood. Se você gosta de filmes com super-heróis e explosões, comece pelo primeiro. Há uma cena em que ele voa e tem um pássaro gigante. Pelo menos 2% do seu dinheiro será empregado em satisfazer suas emoções primitivas de ver luzes piscando. E quem sabe em todo o resto você não encontre um motivo ou dois para dar mais chances a filmes que tentam enriquecer nossa visão de mundo, na arte ou na vida.

★★★★★ Birdman: Or (The Unexpected Virtue of Ignorance). USA, 2014. Direction: Alejandro González Iñárritu. Script: Alejandro González Iñárritu. Nicolás Giacobone. Alexander Dinelaris. Armando Bo. Raymond Carver. Cast: Michael Keaton. Emma Stone. Kenny Chin. Jamahl Garrison-Lowe. Zach Galifianakis. Naomi Watts. Jeremy Shamos. Andrea Riseborough. Katherine O'Sullivan. Edition: Douglas Crise. Stephen Mirrione. Cinematography: Emmanuel Lubezki. Soundtrack: Antonio Sanchez. Runtime: 119. Ratio: 1.85 : 1. Gender: Comedy. Category: movies

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