Black Mirror - The National Anthem

Black Mirror é uma série que explora o que há de pior em nossa era da comunicação instantânea e da tecnologia crescente. Na verdade, eles vão um pouco além da nossa realidade atual, avançando alguns anos/décadas, onde algumas novidades brincam com nosso conceito de humanidade e relacionamentos, mídia e governos.

Essa série britânica parece ter como tema mostrar o que há de pior na globalização da mídia através da internet, além de sua velocidade quase instantânea de compartilhamento, permitindo com que um conteúdo proibido na mídia tradicional (televisão, rádio) por governos se espalhe irrestritamente por esta rede mundial descentralizada.

E é justamente essa relação de impotência dos governos perante a internet o tema do primeiro episódio da primeira temporada da série. Entitulado “Hino Nacional”, a história gira em torno de uma premissa simples: uma princesa queridinha dos britânicos – por seu discurso fácil de ecologia e direitos humanos, diga-se de passagem – é sequestrada e o preço do resgate é transmitir ao vivo, em rede nacional, o primeiro-ministro fazendo sexo com um porco. Uma atitude nada dignificante para um líder de estado, além de nada ecológica.

O episódio é tratado em um tom de urgência e com uma progressão de análise perante os fatos que impede que paremos por muito tempo para pensar, pois o espectador fica quase tão atônito quanto o próprio primeiro-ministro. Quase. Ainda há tempo o suficiente para que enxerguemos as possíveis mensagens por trás dessa crônica da vida real e contemporânea. Não é irônico que líderes adotem o discurso de entrega total à população – ainda mais em época de eleição – mas nunca tenham imaginado que isso envolve se sacrificar como indivíduo até as últimas consequências? Mais curioso, porém, é constatar a crescente descaracterização que o ator Rory Kinnear demonstra, onde após seus últimos suspiros, a câmera se desloca cada vez mais lentamente, prenunciando a quebra total de um indivíduo perante um “contrato social” em que nunca se havia pensado que o outro lado um dia se quebraria perante uma força ainda maior: o fluxo infinito de informação, de todos para todos.

Veterano também no Cinema, Rory Kinnear pode ser visto nos últimos 007, além de nO Jogo da Imitação. Sua performance é preciosa exatamente por fazer seu personagem soar irrelevante para a trama. O que está sendo discutido aqui são os movimentos coletivistas de sempre. O “problema” é que a grande maioria não está acostumada a pensar em estados democráticos como antros da coletivização e do sacrifício do indivíduo, e se pensa assim, dificilmente enxerga que “o outro lado”, dos governantes, deveria seguir o mesmo princípio, o que é tão desprezível quanto o pagamento de impostos.

Dirigido pelo televisivo Otto Bathurst, a fotografia lembra o de telejornais, e eles aparecem em boa parte do tempo, empregando ainda mais realismo ao acontecimento, chegando em um momento em que até fiquei um pouco desconfiado que o sequestro talvez tivesse sido real e eu não fiquei sabendo por não ter passado muito na mídia tradicional (como se ainda acompanhasse isso). Os movimentos de câmera, ou melhor, a decupagem de Bathurst, demonstra sua sensibilidade em capturar quais os melhores personagens para vermos em cada momento, o que explica a lindíssima sequência em que vemos representantes do povo britânito estupefatos diante das TVs de onde assistem o show de horrores, que nada mais é que a materialização do significado real de um estado.

★★★★★ Wanderley Caloni, 2015-12-13 imdb