Black Mirror - Fifteen Million Merits

Dec 13, 2015

Imagens

Black Mirror é uma série que explora o que há de pior em nossa era da comunicação instantânea e da tecnologia crescente. Na verdade, eles vão um pouco além da nossa realidade atual, avançando alguns anos/décadas, onde algumas novidades brincam com nosso conceito de humanidade e relacionamentos, mídia e governos.

Alguém poderia acusar o segundo episódio da primeira temporada de Black Mirror de inocente, ou de dizer apenas obviedades. Esse alguém estaria correto. Porém, mesmo assim, o dizer obviedades em “Fifteen Million Merits” também faz parte do show de talentos futurístico que insere, assim como o episódio anterior, a eterna questão do coletivo definir e subordinar cada indivíduo a seus desejos. Nesse caso, o desejo de sucesso de cada um interfere no que é sucesso para o indivíduo: sucesso é não ser como os outros.

Aqui nosso guia moral é Bing (Daniel Kaluuya), um jovem cuja rotina, assim como a de milhares de outros jovens, é pedalar em uma bicicleta de academia para ganhar pontos. Com esses pontos é possível comprar comida, pasta dental e um ingresso para participar de um show de talentos. Seja pedalando ou em seus minúsculos cubículos, os participantes desse reality show precisam assistir comerciais para evitar perder pontos, onde assistir é estar com os olhos abertos.

Bing desperta a atenção de Swift (Isabella Laughland), que tenta se aproximar dele sem sucesso. Apenas quando uma nova garota chega no mesmo grupo que Bing, a estonteante Abi (Jessica Brown Findlay), é que Bing consegue enxergar algo além daquela realidade artificial. Abi canta no banheiro para não ouvirem ela urinar, e sua voz convence Bing de que ela deve tentar vencer o show de talentos, e para isso está disposto a pagar pelo ingresso da garota.

Vários detalhes em “Fifteen Million Merits” são visuais ou periféricos, mas todos eles se tornam cedo ou tarde relevantes, e podem ser facilmente observados graças às lentes atentas do diretor Euros Lyn, que pincela uma realidade quase opressora, mas que observando as pessoas que nela vivem, parece uma rotina já adaptada por elas há muito tempo. Algo que elas não abririam mão de fazer, caso seja perdida a chance de vencer os jurados mais cedo ou mais tarde.

A questão é que, reviravoltas à parte, Bing decide questionar o sistema, e é aí que Black Mirror consegue se erguer acima da média e, a despeito de todas as obviedades de sua história, questionar nossa própria realidade.

Uma virtude presente apenas nas ótimas ficções científicas. Essa, tristemente, está mais próxima do nosso presente do que nunca.

Wanderley Caloni, 2015-12-13. Black Mirror - Fifteen Million Merits. Black Mirror (UK, 2011). Dirigido por Carl Tibbetts. Escrito por Charlie Brooker. Com Bryony Neylan-Francis, Shawn Aldin-Burnett. IMDB.