Black Mirror - Be Right Back

Black Mirror é uma série que explora o que há de pior em nossa era da comunicação instantânea e da tecnologia crescente. Na verdade, eles vão um pouco além da nossa realidade atual, avançando alguns anos/décadas, onde algumas novidades brincam com nosso conceito de humanidade e relacionamentos, mídia e governos.

As nossas vidas estão irremediavelmente conectadas ao mundo virtual da internet. Alguns não se importam muito com isso, outros praticamente vivem boa parte do seu tempo nisso. O que acontece no primeiro episódio da segunda temporada de Black Mirror é poeticamente tortuoso e trágico. Estou falando da cena em que uma viúva conversa ao telefone com uma versão digital de seu marido.

Dirigido por Owen Harris, a série utiliza um padrão estético que a torna muitas vezes uma versão insípida e enfadonha da realidade. Por ser uma espécie de crítica ao mundo virtual, e por sempre se passar alguns passos além de onde estamos tecnologicamente hoje, esse tom monótono das cores, ou até a artificialidade da natureza em torno dessa quase-realidade atual tem seu sentido, e incomoda tanto quanto os temas usados.

Aqui existe uma tecnologia que se utiliza de nossas vidas virtuais para construir uma persona artificial que consegue se comunicar exatamente como o eu virtual se comunicaria. O que poderia ser uma curiosidade e guia de estudo de comportamento vira um produto que tenta consolar pessoas que perderam seus entes queridos. Martha (Hayley Atwell), embora receosa, começa a utilizá-la na versão bate-papo. Posteriormente descobre que existe uma versão em voz, com um pequeno tom robótico, mas nada que incomode.

O que realmente incomoda nesse episódio é o que vem a seguir: uma versão plástica, uma reprodução perfeita, do que antes era um eu real: um boneco extremamente realista. E o que mais estranha é que, a despeito do vale da estranheza e como nunca conseguimos ainda ultrapassá-lo – uma semelhança com o ser humano de versões digitais que causam repulsa aos seres humanos – essa versão sem esse efeito colateral se torna estranho não pelo seu aspecto, mas pelo que isso significa: o eu digital tomando conta de nossas versões de carne-e-osso, literalmente.

Conseguindo explorar esse conceito de uma maneira narrativamente coesa, o roteiro tem pouco tempo de tela. O “problema” em Black Mirror parece começar a ser conceitos tão interessantes que mereceriam um longa-metragem para explorá-los. E esse é o melhor dos problemas para uma série televisiva.

★★★★★ Wanderley Caloni, 2015-12-13 imdb