Black Mirror - Terceira Temporada, Episódio 1: Nosedive

Oct 23, 2016

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É muito bom ter o Black Mirror de volta na Netflix, com episódios novos. Nenhum me desapontou até agora, tanto pelos aspectos técnicos, narrativos, mas, principalmente: em fazer pensar. E esse nos faz pensar apesar da ideia óbvia: redes sociais. Todas juntas, na vida “real”, fazendo as pessoas se esforçarem por aumentar suas notas, sua popularidade. Tudo depende disso. E no caso, o tudo é uma vida cercada de mentiras. Como não amar uma série como essas?

Black Mirror tem esfregado a realidade na cara do espectador já faz três temporadas agora. Agora ele conta a história de Lacie, uma garota solteira que vive com o irmão e que precisa se tornar extremamente popular rapidamente para conseguir mudar para a casa de seus sonhos (vendida pela corretora da maneira mais covarde possível: a colocando do lado de um grande amor, um holograma usado para todas as potenciais compradoras).

Lacie tem se esforçado no social. Faz corridas pela manhã com o celular na mão, atualizando sua timeline e curtindo a dos outros. Na hora do café, cria uma foto fofa para conseguir mais likes (embora odeie café). No serviço, evita ficar do lado dos impopulares, além de bajular pessoas no elevador que mal conhece pessoalmente. Mas quem precisa conhecer pessoas hoje em dia, se a vida inteira delas, em tempo real, está o Facebook?

Lacie é interpretada por um achado. Bryce Dallas Howard consegue manter uma risada nervosa e falsa e hilária ao mesmo tempo que diz o nome “Greg”. Apesar de pesadamente maquiada, seus olhos exibem uma versão mais doentia de Leslie Knope (a bem-intencionada da série Parks and Recreation), onde o objetivo é subir a pontuação de popularidade. Ela é enérgica consigo mesmo e com os outros, e consegue esconder sua raiva, angústia e frustração pelo bem de seus pontos.

E o mundo pintado pelos três roteiristas e dirigido por Joe Wright é ainda mais cruel, pois as empresas de serviço selecionam seus clientes com base em sua pontuação. Dessa forma, ou você se enquadra no que as pessoas consideram aceitável e até positivo, ou será um outcast apenas por ser você mesmo (se no caso o você mesmo for alguém desagradável para os outros). Isso leva a uma (esperada) derrocada de nossa “heroína” nesse mundo de faz-de-conta (mesmo se estivermos falando do ponto de vista desse mundo), onde ser falso é premiado, e ser honesto sempre é um risco que apenas podemos nos dar ao luxo de fazer com pessoas muito próximas como a família (o que explica porque Lacie não exita em criticar seu irmão, que está com pontuação medíocre e pouco se importa com isso).

Nesse mundo não quer dizer que você deve viver dessa forma ou morre. Os exilados existem, e aparentemente são mais felizes assim. A questão toda gira em torno da crítica a qualquer sistema semelhante (dê você o nome do que odeia mais: consumismo, aparência, o tal “capitalismo” que a esquerda demoniza). A série quase sempre critica o sistema, e não as pessoas que estão dentro dele. Até porque, se formos olhar de uma maneira clínica, não há praticamente nenhuma saída destes admiráveis mundos novos a não ser simplesmente ignorá-lo.

E, convenhamos, o final deste episódio fala por si mesmo, sem precisar de maiores explicações: os comentários de internet, principalmente os anônimos, são justamente os últimos momentos de Nosedive. Espero que se lembre disso da próxima vez que for espalhar o seu ódio em comentários inconsequentes.

Wanderley Caloni, 2016-10-23. Black Mirror - Terceira Temporada, Episódio 1: Nosedive. Dirigido por Joe Wright. Escrito por Charlie Brooker, Rashida Jones, Rashida Jones, Michael Schur, Michael Schur. Com Bryce Dallas Howard (Lacie), Alice Eve (Naomie), Nambitha Ben-Wazi (Glam Woman), Michaela Coel (Airport Stewardess), Jeffrey Davenport (Cab Driver), Sope Dirisu (Man in Jail), Clayton Evertson (Ted), Demetri Goritsas (Lacie's Reputelligent Agent), Daisy Haggard (Bets). IMDB.