Black Mirror - Terceira Temporada, Episódio 2: Playtest

Oct 25, 2016

Imagens

Como seria um episódio de hoje em dia da série “Além da Imaginação”, que mistura lendas urbanas, teorias da conspiração e acontecimentos fantásticos, sempre com um fundinho de moral? Desconfio fortemente que seria como os idealizadores de Black Mirror nos fizeram passar este episódio-terror, que parece experimentar um Twilight Zone versão High-Tech. Este episódio, afinal de contas, também parece um playtest da série.

Em uma época onde os games se tornam cada vez mais detalhados, a realidade aumentada e virtual viraram uma onda frenética, e as redes neurais… ops, o machine learning nos leva cada vez mais próximos da singularidade (quando a inteligência artificial se tornar mais esperta que seus criadores). Tudo isso aliado a um protagonista que abandona sua família por não saber se comunicar com sua mãe após a morte do pai, e viaja pelo mundo enquanto vai elaborando como finalmente atender as incessantes ligações da mãe em seu celular.

As ideias de Black Mirror costumam ser bem mais mastigadas que isso. Parece que os roteiristas trabalharam por muito tempo para amadurecer cada um dos detalhes de seus excelentes episódios, que além de explorar bem seus temas narrativamente prendem a atenção até o fim. Nesse caso, talvez estejamos frente a um episódio desleixado, ou apenas uma miscelânea que tenta experimentar coisas novas na série (o que é ótimo, apesar de não chegar aos pés das experimentações de Sherlock).

De qualquer forma, há algo perene no ar que consegue prender a atenção até segundos finais antes dos acontecimentos catárticos finalmente acontecerem. É o mistério de qual o tipo de episódio que estamos assistindo. Pra variar, é um terror psicológico. Mas em qual camada? O que é tão aterrorizante?

Justamente por atrasar demais suas revelações, o episódio fica arrastado, e as aparições tão aguardadas fica não apenas aquém do que o espectador foi alimentando na sua muito mais poderosa imaginação, como o terceiro ato se torna confuso por desencadear detalhes aprendidos em revelações espalhadas pela história (há uma empresa de games promissora, eles pagam bem pelos beta testers, ele não atende sua mãe desde sua saída de casa, etc).

Além disso, as obvias referências, não apenas a games de terror (Resident Evil? Silent Hill?) como a obras literárias (Edgar Alan Poe), apesar de representadas em uma direção de arte fabulosa demais para uma série televisiva (e uma casa do terror tão impressionante que apenas ela é o suficiente para assustar), ainda assim, ou por causa da falta de personalidade, soam sempre fakes demais.

Porém, há algo meio trash e meio reflexo distorcido no espelho neste episódio, que insiste em estruturar seu desfecho em camadas que tornam seu Grand Finale tão trágico quanto bizarro, daqueles casos que aparece no telejornal policial, onde não sabemos distinguir o que é humanidade do que é apenas instinto sádico e animal do ser humano.

Bom, uma série como Black Mirror está a todo tempo brincando com esse conceito usando tecnologias quase na palma de nossas mãos. Nesse caso, o dos jogos de videogame, confesso que esperava muito mais imaginação por parte dos criadores. South Park já fez muito melhor.

Wanderley Caloni, 2016-10-25. Black Mirror - Terceira Temporada, Episódio 2: Playtest. Dirigido por Dan Trachtenberg. Escrito por Charlie Brooker. Com Wyatt Russell (Cooper), Hannah John-Kamen (Sonja), Wunmi Mosaku (Katie), Ken Yamamura (Shou Saito), Elizabeth Moynihan (Cooper's Mum), Jamie Paul (Josh Peters), Jessica Nell (Scared Girl on Plane), Jade Clarke (Pub Local), Deborah Rock (Airline Passenger). IMDB.