Blue Exorcist

Blue Exorcist em seu primeiro episódio é um exercício de estilo e composição de personagem que passa tão rápido que cumpre com louvor seu papel de fisgar o espectador. Porém, para qualquer um que tenha visto meia-dúzia de filmes/séries/animações, fica claro que logo o personagem melhor trabalhado (leia-se: mais fodástico-ever) terá que morrer para dar lugar a um drama que – claro! – só se resolverá no último episódio de uma longa série que mistura humor animê quase sempre mal trabalhado com raros, mas ótimos, momentos de tensão e drama embutidos em uma atmosfera fascinante a respeito da divisão do mundo em carnal e espiritual.

Aliás, o que compensa atravessar essa via-crucis de temas batidos e roteiro banal quase sempre são as ideias por trás do executado, ideias essas que intencionalmente giram em torno da figura de Rin Okumura (dublado por Nobuhiko Okamoto), um dos filhos de uma humana com o Satanás “em pessoa”, mas que também abre espaço para a apresentação de personagens secundários interessantes e que cumprirão sua única função de servirem de laços de amizade e base moral do nem sempre controlável semi-demônio.

Não se intimidando em usar o Vaticano como bode expiatório de inúmeras decisões visivelmente incompetentes para quem as sofre, mas burocraticamente razoáveis, a religião não é algo que tenha o seu lugar nessa crítica, pois figuras divinas estão isoladas da figura dos exorcistas que são descritos na série (embora suas rezas e livros sagrados sejam levados em conta como arma de defesa para esses humanos, o que não deixa de ser ao mesmo tempo irônico e hipócrita).

Finalizando com algo mais ou menos delineado pelo que seu fraco roteiro já apresentava, exceto uma ou outra surpresa tirada literalmente da cartola (como um uso completamente imprevisível e aleatório das “chamas azuis” do protagonista), Blue Exorcist não consegue sequer tomar uma atitude corajosa no que diz respeito a Satanás e seus demônios, preferindo continuar atacando os mortais por trás da congregação milenar, facilmente trocáveis e ficcionalizáveis.

★★★☆☆ Wanderley Caloni, 2014-08-31 imdb