Bohemian Rhapsody

Nov 15, 2018

Há um momento em Bohemian Rhapsody em que teoricamente tudo funciona: o seu final. A atuação de Rami Malek, como Freddie Mercury, o vocalista irreverente e exótico da banda Queen, está em seu ápice; os efeitos visuais do estádio onde eles tocam funciona porque toca na relação de cumplicidade dos fãs com a banda; as pessoas mais importantes em sua vida pessoal se encontrado do lado do palco, acompanhando emocionados a performance de uma pessoa única e especial; o cantor/lenda reconhece suas origens e faz as pazes com sua família em um evento transmitido para o mundo inteiro. Se trata de uma cena de peso, único e que merece figurar nos momentos mais marcantes do Cinema em 2018. Mas como filme… bom, eu disse que ela funciona mais teoricamente; talvez para outro filme.

Isso porque tudo o que vem antes, o filme como um todo, não trabalha em função desse momento. Se trata de um apanhado na biografia do cantor e da banda (mas mais do cantor) que burocraticamente e sem tensão alguma (não há quase conflito) nos conduz a este ápice e suas lágrimas. Mas o ápice não existe, pois não houve sacrifício nessa história, e as lágrimas são manipuladas pelo roteirista Anthony McCarten, que já fez isso em A Teoria de Tudo: “vamos chorar porque é emocionante e há personagens chorando”, e não “vamos chorar porque este é um momento de redenção”. Infelizmente não é um momento de redenção. Mas olhe para essa banda e esse cantor. Olhe que momento único que era vê-lo cantar. Se trata de uma lenda do rock. Inesquecível e poderoso.

O diretor Bryan Singer após marcar época com seu thriller policial classudo Os Suspeitos fica pulando entre projetos bem diferentes como uma continuação de Superman ou a bem-sucedida franquia dos super-heróis mutantes X-Men. Aqui ele escolheu um projeto relativamente fácil de dar certo, pois a trilha sonora é a melhor possível e tudo se trata de reconstruir um pouco da magia daquela época até que recente.

Para isso ele elenca Rami Malek (da série Mr. Robot) depois de ter perdido o comediante Sacha Baron Cohen (“Borat”). Malek se transforma no palco, mas não consegue o mesmo fora dele com sua dicção estranha, monotônica e grave, e sem uma construção de um personagem, qualquer que seja. Seria a falta de acesso a material da vida privada de Mercury? Seria uma trava do roteiro em não permitir o crescimento do protagonista através de sua história em que praticamente tudo funciona (exceto ele contrair AIDS)? Ou seria a falta de alma no projeto, já que as cenas da conturbada carreira do vocalista-gênio aparentemente eram mais intensas do que apenas vemos sugerido no filme?

Se formos pensar no contraste da vida de sexo (gay), drogas (pesadas) e rock-and-roll de Freddie e no que vemos em “Bohemian Rhapsody” vamos chegar à conclusão que esta é uma versão da Disney, sanitizada, puritana e igualmente contraditória para o mercado americano, que chegou a banir um clipe que a banda fez onde todos se vestiam de empregadas domésticas em cenas eróticas. Não foi apenas a MTV a conservadora na época; os EUA são uma contradição à parte nesse jogo entre os desejos mais libertinos e a postura pública sóbria demais para ser vivida, e o próprio filme de Singer ironicamente exibe esse puritanismo.

Ou a fonte dessa conveniente e comercial produção seria do seu roteirista família, Anthony McCarten? Importante lembrar que McCarten em A Teoria de Tudo utiliza a primeira esposa do físico teórico Stephen Hawking para criar um núcleo moral onde tudo orbita. Aqui ele realiza a mesma trucagem com a primeira (e única) esposa de Mercury, Mary Austin, que nas semi-católicas mãos de Lucy Boynton parece estar protegido das tentações baixas demais que ele enfrenta após cada show nos bastidores. Não por acaso, já separados, quando Freddie compra uma casa ao lado de Mary para não perdê-la de vista, seu quarto fica no térreo e possui uma iluminação vermelha, tornando óbvia a relação entre o vocalista vivendo em seu inferno astral tentando manter uma ponta de conexão com o divino. Todos artistas precisam de uma musa, mas isso está bem mais longe de ser apenas isso.

Por outro lado a direção de Singer é precisa e diverte com o pouco material que lhe é fornecido. Ele usa o clima descontraído da banda e dos produtores para realizar diversos diálogos irreverentes para decidir o próximo passo dos astros, e Singer desenvolve o humor em poucas falas. Além disso, é dele o corte mais hilário do longa, quando nos momentos finais, durante a música “We Are The Champions”, vemos seu primeiro agente, naquelas ironias do destino dos descrentes do sucesso de alguém tão exótico para o mundo pop star.

Bohemian Rhapsody não é exatamente a homenagem respeitável da figura icônica de Mercury, e para falar a verdade, dificilmente saberemos se isso é possível de ser feito. Porém, é um fan service de primeira qualidade, nem que seja técnica. E vai dizer que apenas por poder ouvir novamente os hits do Queen em uma versão ligeiramente sanitizada da realidade não é algo que valha a pena de ser assistido? Talvez apenas uma vez.

Imagens e créditos no IMDB.
Wanderley Caloni, 2018-11-15. Bohemian Rhapsody. Reino Unido, EUA, 2018. Escrito por Anthony McCarten baseado na história de Peter Morgan. Dirigido por Bryan Singer. Com Rami Malek, Lucy Boynton, Gwilym Lee. Musical, biografia, efeitos visuais, edição.