Boyhood: Da Infância à Juventude

Boyhood: Da Infância à Juventude – que possui esse subtítulo nacional horrível para as pessoas ficarem atentas quando o filme termina – é o trabalho de doze anos de filmagens (na verdade, 45 dias espaçados em períodos de cerca de um ano) para que os atores principais – eu seu início crianças de sete e oito anos – pudessem crescer naturalmente e com isso interpretassem todas as fases de crescimento da infância à adolescência. Seu diretor, Richard Linklater, já era conhecido por seu estilo realista em sua até o momento trilogia Antes do Amanhecer, “Antes do Por-do-Sol” e Antes da Meia-Noite, filmados de dez em dez anos com Julie Delpy e Ethan Hawke (este último também participa de Boyhood) para analisar o amadurecimento dos seus personagens. O que ele nunca fez, e, sinceramente, não me lembro de ter visto sido feito com tanto afinco, foi filmar uma ficção que tirasse proveito do processo de envelhecimento da vida real.

Mas o que se ganha como Cinema filmando assim? Bom, em primeiro lugar, não há nem troca de atores nem a necessidade de cortes profundos no tempo para que essa troca seja feita. Normalmente um ator-mirim, quando precisa viver alguns anos de seu personagem, é envelhecido com o uso de maquiagem ou enquadramentos que dão a impressão de crescimento até que haja um corte propício (ex: dos 10 aos 15). Nesse caso, acompanhamos todos os anos dessas crianças, suas mudanças de visão, suas atitudes, suas amizades, paixões, brigas, etc. É um recorte na vida de uma família que poderia muito bem existir na vida real, pois não há nada de especial em seus personagens, mas, da mesma forma com que acompanhamos os fascinantes diálogos de Jesse e Celine na série de filmes citada, é igualmente maravilhoso conseguir acompanhar a mudança, por exemplo, nas conversas com o pai divorciado, que visita os filhos frequentemente, mas cuja vida permanece um mistério.

Ou seja, o segundo ganho dessa técnica ambiciosa, arriscada e quase que completamente aleatória de estabelecer um roteiro minimamente filmável, mesmo estando à beira das mudanças nos atores em sua vida real (poderia, por exemplo, deixar de atuar), parece ser a curiosa sensação inicial de estranheza no primeiro avanço no tempo (eles não trocaram os atores?) para uma gradual adaptação que vira um outro sentimento, nunca experimentado antes no Cinema: estamos assistindo à própria vida. Conseguimos acompanhar a evolução e os erros dos pais desses jovens, mas ao mesmo tempo seus acertos. São pessoas que se tornam aos poucos de carne e osso, que vivenciam momentos que também vivenciamos (como a segunda trilogia de Star Wars ou a estreia de um novo livro de Harry Potter) e que possuem as mesmas dúvidas que nós, adultos e crianças, sempre temos e sempre teremos. O amadurecimento do filme se torna, então, o amadurecimento da própria vida. Um brinde a esse feito incomensurável para a arte.

★★★★★ Wanderley Caloni, 2014-12-20 imdb