Brazil: O Filme

Aug 9, 2016

Imagens

Terry Gilliam nos apresenta esse futuro distópico onde “Aquarela do Brasil”, de Ary Barroso, é o tema musical perfeito para esse clima fabuloso, que transforma um drama grandioso em uma comédia séria, que trata de governos totalitários e o seu maior perigo: a enxurrada de papéis de uma burocracia sem fim, que pode engolir pessoas vivas. Nós sabemos vagamente que toda a ineficiência do governo acaba matando indiretamente milhares de pessoas todos os dias pelos erros de alocação de recursos. Porém, em “Brazil”, basta um erro de tipografia e sua vida foi extinta, literalmente. Ainda bem que erros estatais nunca acontecem. Não é mesmo?

Seu herói, ou quase mais um espectador de tudo isso, é Lowry (Jonathan Pryce), Sam Lowry, que trabalha no Ministério da Informação (cuja sigla em inglês, MOI, além de estar impresso em todos os pertences de seus escritórios, incluindo xícaras de chá e aquários, já remete sutilmente a outro ministério, o “Ministry of Interior”, que é o ministério que controla seus súditos e o que andam fazendo). Lowry sonha constantemente que tem asas e voa em busca de sua amada, uma loira de aspecto angelical que se encontra presa em uma jaula. De dia ele vive em um país sem nome que é controlado por formulários e regulamentações, e tem seu resultado nas invenções futuristas, como um sistema de encanamento que passa pelo meio dos recintos e recheia as paredes, além carros pessoais extremamente inconvenientes, despertadores que não funcionam, computadores que têm suas telas ampliadas por uma tela que funciona como uma lupa, e um sistema de busca de inimigos públicos que consegue ser burlado por um inseto inconveniente (ironicamente, um ser voador, justamente como nosso Lowry).

Gilliam e sua criatividade estão totalmente sem controle, e seu universo é riquíssimo, como se alguém estivesse muito insatisfeito com a sutileza de 1984 (o livro e o filme de George Orwell) e quisesse fazer algo mais espalhafatoso, onírico, surreal e brincalhão. Coincidência ou não, a luva serve perfeitamente para os governos sul-americanos, cujo povo é conhecido pelo bom humor, mas que infelizmente passeia por crises a todo momento geradas pelo Estado e sua incompetência ululante.

Filmado com câmeras deitadas que evocam o clima utópico e sensacional daquela realidade, a direção de arte consegue criar ambientes internos ricos em detalhes, e fazer com que sequências em estúdio se pareçam com as tomadas externas de Metrópolis. O caos é representado por um corredor imenso de pessoas indo e vindo tirando e colocando papéis. A loucura da burocracia está confinada em um escritório de meio metro com uma mesa que é dividida com o vizinho através de uma abertura. Sua ineficiência é representada por um elevador que dificilmente funciona (exceto o do vice-presidente, é claro).

O ambiente de Brazil consegue brincar com diferentes nuances dessa realidade fantástica que não está muito longe da nossa própria realidade. Dessa forma, quando o ar condicionado do apartamento de Sam quebra, ele tem que usar um telefone com 12 pinos (os próprios usuários precisam fazer o papel de uma telefonista; e isso em um filme de 1985) e tentar chamar alguém do próprio governo para consertar; infelizmente nem sempre eles estão disponíveis, e é por isso que figuras como Harry Tuttle (Robert De Niro) acaba salvando o dia, trabalhando como autônomo. A parte triste é que por causa disso ele será confundido como um inimigo do Estado, o que não deixa de ser verdade (embora não justifique que ele seja assassinado; bom, pelo menos eu acho).

O importante é que tudo está sendo feito para a segurança de todos. É por isso que quando um suspeito é preso em sacos que ficam pendurados durante o inquérito isso é visto como normal. O Estado já nos tem como propriedade de qualquer maneira; qual a diferença entre estar em um saco ou estar em um minúsculo apartamento, provavelmente adquirido graças à bondade dos governantes?

A riqueza dos detalhes descreve também a obsessão por estética – mais uma vez uma coincidência incrível com nosso país – e o tom insosso dos alimentos de um restaurante chique. Se a mãe de Sam teve a sorte de ser operada com sucesso, o mesmo não se pode dizer de sua amiga, que está sendo levada lentamente ao leito de morte, cirurgia plástica atrás de cirurgia plástica (e note os pelos de seu cachorro também sumindo). E o restaurante chique tem a finesse de levar um cardápio em formato eletrônico que lhe dá oito opções enumeradas de pratos, que serão servidos como um purê de cores diversas do lado de uma fotografia do prato que você pediu, como um belo de um bife. Nada escapa aos olhos críticos e enlouquecidos de Gilliam, um dos membros do grupo de comediantes Monty Python.

No entanto, apesar de um filme visualmente impecável que consegue conduzir sua história de loucura (ou sonho) enquanto o apresenta, nada supera a ambição ao final do terceiro ato, onde somos levados a um portal que revela toda a engenhosidade de “Brazil” em descobrir a si mesmo como um gerador de vários insights por segundo, e uma triste constatação. Mas se anime. Não há tristeza em rir de nós mesmos como essas hilárias fazendas humanas cheias de formulários para preencher. Um dia talvez esses formulários nos engulam, mas essa é uma pequena desvantagem frente à segurança que o governo nos passa. Não é mesmo?

Wanderley Caloni, 2016-08-09. Brazil: O Filme. Brazil (UK, 1985). Dirigido por Terry Gilliam. Escrito por Terry Gilliam, Tom Stoppard, Charles McKeown. Com Jonathan Pryce, Robert De Niro, Katherine Helmond, Ian Holm, Bob Hoskins, Michael Palin, Ian Richardson, Peter Vaughan, Kim Greist. IMDB.