Breaking Bad - Primeira Temporada

Sabemos desde o início do seriado que há algo de novo, muito novo, na televisão. Através da figura de um pacato professor de química que descobre ter câncer e que será pai novamente enxergamos aos poucos a relativação da moral quando Walter White decide produzir drogas usando seu conhecimento e sua recém necessidade de zelar pelo futuro de sua família. Através dessa história inicial somos levados ao mundo do crime e como ele pode ser bem menos glamoroso do que imaginamos, mas também bem menos assustador do que nos contam. O mais fascinante durante todo o ciclo de ascensão e decadência de um ser humano qualquer é que percebemos como a força motriz que move o homem não necessariamente precisa passar pela aprovação do bem moral vigente. Isso não existe na cabeça dos que fazem o que admiramos. Apenas os fins são capazes de justificar seus mais loucos atos. Fins esses que começaram de forma nobre.

Desde o começo há um discurso libertário. E não estou falando apenas de governo, mas de todas as amarras sociais que, se de vez em quando são úteis, na maioria do tempo aprisiona e limita o espírito humano. Breaking Bad fala da quebra de todas essas amarras, uma a uma.

Mas, obviamente, o governo é a primeira delas.

A proibição de bebidas durante a lei seca, na década de 30, gerou uma onda de violência que só se compara com a atual onda de violência que gira em torno do combate às drogas. A diferença primordial é o que você chama de droga.

Em um dos últimos diálogos da temporada, entre Walter White, um químico genial que começa a lucrar produzindo e vendendo uma droga ilegal, e seu cunhado Hank, representante máximo da força e truculência estatal, com sua moral relativa e uso da autoridade e da lei de uma forma distorcida (como prender um faxineiro porque ele tinha um cigarro de maconha em seu carro, ou tratar uma prostituta viciada como um lixo), o tema principal, trazido à tona por Walter, é como as proibições legais parecem sempre arbitrárias, não sendo possível prever o que será utilizável no futuro sem medo de ser preso por isso e o que passará a ser o novo inimigo número 1 da sociedade.

O fato é que esse diálogo tem importância mínima para Hank, já que ele está do lado da lei, e tem o aval de executá-la ao seu bel prazer, mas tem importância máxima no destino de Mr. White e seu novo negócio. Afinal de contas, a droga que ele produz era comercializada em qualquer farmácia de bairro há alguns anos apenas, o que quer dizer que seus conhecimentos de química seriam inúteis caso a droga continuasse liberada, pois não teria seu preço tão valorizado. Além disso, não existiriam todas as mortes provocadas pelo seu comércio ilegal, parte delas testemunhamos, e boa parte de seus usuários sequer seria mal vista, já que haveria lugares mais adequados para seu uso recreativo. Como o álcool.

Dessa forma, vê-se facilmente que a discussão, analisando um simples diálogo, vai muito mais além do simplório “o governo não devia proibir, pois as pessoas têm o direito de se matarem”, já que as consequências da proibição atinge um patamar muito mais imprevisível do que esse esquema simplório da realidade.

E mesmo se esquecermos das drogas, das leis e da violência, há um outro fator determinante na mudança de atitude do protagonista: ele sabe que irá morrer. Ele possui uma família, quer sustentá-la. Principalmente porque não conseguiu dar a vida – vamos aprendendo – que ele quis para si mesmo. Ele não conseguiu atingir o seu ápice como químico brilhante, e agora ele irá utilizar sua genialidade para o que for mais rentável no mínimo espaço de tempo. O seu tempo é escasso, e as transformações químicas em seu próprio corpo não o favorece.

Ou favorece? Surpreendendo a cada episódio, o pacato Sr. White vai aos poucos conhecendo a potência criadora de saber que o único tempo que nos resta, de fato, é o aqui e o agora. O passado se foi, é lamentável, mas mais ainda é o futuro, que ainda não existe, e pode muito bem não existir. Seu câncer o avisa que o futuro é ainda mais improvável. Então a hora de agir é inevitavelmente agora.

As metáforas com a química e a vida são a parte que mais vale a pena acompanhar. Em determinado episódio, ele está com uma colega “desmontando” o corpo humano em seus componentes químicos, até chegar em uma porcentagem quase total, mas ainda faltando algo. Sem saber o que é, sua colega sugere: seria a alma? A resposta é simplória (“só há química aqui”), mas poderosa nas imagens. É o momento em que Mr. White irá realizar seu primeiro homicídio pensado.

Falar sobre o uso das cores, um assunto abordado à exaustão. Jesse Pinkman, seu parceiro no crime e ex-aluno problemático, é representado pelo amarelo. Skyler, sua esposa e um bem desejável, ainda que sempre seja alvo de problemas, é o azul. Walter White, e sua ganância que às vezes parece sair do controle, é sempre o verde. E como os cenários são pintados com essas cores, e os figurinos utilizados com essa lógica, é o prazer do fã em caçar detalhes de fotografia por toda a história. Isso ajuda a entender o que está acontecendo, às vezes. Quando Pinkman volta para a casa dos pais, a ganância deles verem seu filho um não-drogado, e alguém mais como seu irmão mais novo, vestido de camisa social, é um óbvio ululante. Porém, mais óbvio que isso são os detalhes em verde, que representa justamente essa visão linear e destrutiva do poder criativo das pessoas. Pinkman, quando mais jovem, era um artista. Em que ele se transformou?

Transformação… talvez essa seja a palavra-chave de toda a série. Bom, pelo menos é a da primeira temporada. Vemos diferentes personagens interagindo de uma forma que não veríamos não fosse o poder de transformação dos elementos químicos. Sejam célular malignas trabalhando de forma caótica… seja uma droga viciante, que faz esquecer que essa vida, quando passa, nos toma cada vez mais tempo, nos deixando ver os sonhos que tínhamos irem embora para sempre.

A não ser que você tome as rédeas de sua vida. Isso é ser libertário.

★★★★★ Wanderley Caloni, 2016-07-16 imdb