Breaking Bad - Segunda Temporada

Temporada S02 revista. Alguns sentimentos mistos. A saga do Walter White ganha alguns contornos novelísticos, mas a paixão cromática do diretor de fotografia é contagiante do começo ao fim. Não me lembro de nenhum episódio onde não estivesse procurando nos cenários e figurino a presença das cores verde, amarelo, azul e roxo; pior: agora temos um novo tom que começa a despontar: o cinza/preto.

E é por isso que um dos astros fora de cena que melhor contribui para a história é Michael Slovis, o diretor de fotografia de todos os episódios (ou da grande maioria), e que nas próximas temporadas irá digirir um episódio em cada.

E por falar próximas temporadas, é interessante entender agora, na revisão, que alguns personagens icônicos foram apresentados bem antes porque eles serão vitais para o decorrer da ascenção e queda do “gênio” do crime. Dessa forma, a presença precoce de Giancarlo Esposito (Gustavo Fring, o Gus), e Jonathan Banks (Mike Ehrmantraut) e até de Bob Odenkirk (Saul Goodman), que ganhou série própria, é indicador que a história de Breaking Bad, ao contrário de séries de guerras nas estrelas, já foi, se não totalmente pensada, delineada em seu esboço narrativo, com pelo menos uma vaga ideia de como ela deve evoluir e até ser concluída. Isso sem teorias da conspiração.

É dessa forma que testemunhamos com um certo arrepio o até então pacato e sensível Walter White (Bryan Cranston), depois de ver sua tomografia com detalhes sugerindo uma metástase (aliás, o nome da série que é o remake latino), possivemente para o cérebro, começa a ter atitudes antes incoerentes com seu personagem (como a briga com seu cunhado com a tequila, ou o soco no banheiro, ou até uma das primeiras frases icônicas, “fique longe do meu território”). Porém, agora que o câncer começa a ficar sob controle, a série sutilmente sugere que algo já saiu das estribeiras dentro do químico brilhante.

Porém, se Bryan Cranston faz aqui uma evolução fascinante do protagonista, Aaron Paul não fica nem um pouco atrás com seu garoto, Jesse Pinkman, virando de uma vez por todas os olhos e o coração do espectador. É ele que protagoniza um dos melhores episódios, Peekaboo, em que vemos uma família totalmente desmantelada pelas drogas, incluindo a criança mais suja do universo.

Aliás, é justamente Jesse o responsável pelas tiradas cômicas que melhor funcionam nesse universo. Sua ainda ingenuidade, mesmo sendo um viciado inveterado, é ao mesmo tempo engraçada, tocante e irritante. Quando ele evoca a imaginação de “Mr. White” (que ele insiste em chamar assim, como um sinal ainda de respeito) para que ele crie uma solução para (mais uma) situação de vida e morte dos dois, ele sugere ludicamente que faça um robô. Quando o professor começa a pedir que ele colete todo tipo de metal galvanizado do trailer, ele consegue fazer um olhar de fascinação absolutamente convincente: “você vai construir um robô?”.

E se Breaking Bad continua usando bem tanto a lógica narrativa quanto a exploração das inúmeras situações na série – algo mais que óbvio, visto que a série combina diferentes roteiristas e diretores, algo impossível de harmonizar se não fosse o ótimo conteúdo central: seus personagens – o seu tema libertário se torna até mais incisivo. Ainda mais quando vemos Hank, o policial orgulhoso de combater o crime de tráfico de drogas, fabricar cerveja artesanal em sua própria garagem – e, obviamente, nunca ligar uma coisa à outra. Quando ele fere sua mão com uma das garrafas, ele usa um guardanapo de cor azul gritante para estancar o sangue. E a série se torna um mosaico de cores e assuntos que estão sempre orbitando as pessoas desse universo.

★★★★★ Wanderley Caloni, 2016-07-16 imdb