Breaking Bad - Terceira Temporada

Jul 16, 2016

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Após a sequência de coincidências discutível no final da temporada anterior, Skyler agora sabe da droga, Walt decide em um ímpeto queimar o dinheiro, mas volta atrás. Todos são culpados na terceira temporada, dos usuários aos distribuidores e produtores, mas também os defensores da lei. Ninguém está a salvo do escrutínio moral, mas em vez de criticar, a série os entende perfeitamente. É a moral do indivíduo que está em jogo, e não uma série de leis absurdas em torno das quais todos lutam ferozmente.

A questão é que fazer a droga é o que Jesse Pinkman faz de melhor, e sua visão de que ele deve seguir esse caminho está completamente de acordo com seu personagem e segua uma moral que não tem nada de errado ou recriminável. A droga pode destruir vidas, mas fazê-la é um ato de virtuosismo. Jesse, portanto, aqui assume que sua natureza é “má”, mas, nós sabemos, apenas do ponto de vista da coletividade. Ele compra a casa de seus pais por uma barganha, ameaçando denunciar pelo laboratório que lá existia. Usar a lei a seu favor é um dos melhores traços dessa temporada.

Afinal de contas, é com o dinheiro da produção de metanfetamina que Walter White conseguirá bancar o tratamento de seu cunhado. Irônico, não?

Os gêmeos impressionam e representam a loucura da máfia latina, e por contraste mostra como Gus chegou ao topo sendo a pessoa fria e calculista que W.W. aos poucos vai se transformando.

O relativismo moral mais uma vez é discutido quando Skyler começa a trair Walter. É compreensível, e faz pensar sobre os limites dos personagens. O realismo desse limite é o forte na trama. O fraco, como sempre, são as coincidências incríveis que acontecem, e até o jogos forçado como a corrida de Hank para o hospital em busca de sua mulher pode parecer forçada, apesar de existirem motivos pincelados durante os episódios que justificassem sua precipitada ação.

Tudo isso para um dos poucos episódios dirigido pela interessante Michelle MacLaren (o outro dessa temporada, I.F.T., também irrepreensível) e que contém um dos melhores tiroteios de toda a série, perdendo talvez para a sequência que se precede o melhor episódio, “Ozymandias”, de Rian Johnson (estou falando do final de “To’hajiilee”). Tive que assistir mais umas três vezes o tiroteio entre os irmãos e Hank; primeiro para contar as balas; segundo para contar os segundos.

Enquanto isso, o personagem de Bryan Cranston consegue exalar humanidade e preocupação com a família (ele está de fato preocupado com Hank após o tiroteio), mas ao mesmo tempo vai revelando uma psicopatia e decisões que Jesse piraria só de pensar que demonstram ou que a metástase em seu cérebro pode o estar transformando (uma teoria muito válida dos fãs da série) ou que Walter White é um misto de ser humano amoroso e inteligente, mas que usa sua inteligência para seus objetivos mesquinhos enquanto pode. E quem, sendo tão inteligente assim, não o usaria para sobreviver a qualquer custo?

É essa falta de “vilanice” de seu personagem que torna a série tão fascinante. Se fosse o caso de apenas um vilão sanguinário e inconsequente como o congressista matador-de-cachorros Francis Underwood em House of Cards (não que ele seja ruim, muito pelo contrário), perderíamos o contato com a humanidade do sujeito. Porém, ao juntar os dois, temos uma das melhores atuações de todos os tempos.

E voltando aos diretores, Rian Johnson faz agora um dos melhores episódios da série, que é um filler – um episódio para preencher espaço na temporada – pois conta a história de uma mosca no laboratório por quase uma hora, mas se torna importante nos minutos finais para tentarmos entender o que poderia acontecer com o protagonista e seus atos se uma metástase no cérebro realmente estivesse acontecendo (e é admirável que a série nunca nos dê as certezas que esperamos, preferindo, de maneira acertada, manter o enigma no ar).

Não há frases marcantes no final dessa temporada. Porém, o que se segue antes de Walter gritar “corra” para Jesse foi um momento tenso e milimetricamente pensado. Infelizmente, aqui já esgotamos faz tempo a cota de coincidências, e Jesse encontrar a mãe do garoto que matou um de seus traficantes parece demais, talvez até mais do que o encontro entre Walter e o pai de Jane.

Full measure, escrito e dirigido por Gilligan, confirma Dave Porter como um dos melhores músicos para cinema. Ele simplesmente nos joga para um policial dos anos 80 com uma rápida sequência envolvendo Mike, que sempre ganha as melhores pontas, e merecidamente. Observe sua sobrancelha franzindo enquanto explica como se sente culpado pela decisão de manter vivo um marido que espancava sua mulher.

Conseguindo manter um equilíbrio fascinante entre seus personagens principais, Breaking Bad ainda se mantém como uma experiência única na televisão, e que ainda flerta duramente com a possibilidade de ser comparável às grandes obras do Cinema. E isso porque ainda apenas começamos.

Wanderley Caloni, 2016-07-16. Breaking Bad - Terceira Temporada. Breaking Bad (USA, 2008). Dirigido por Michelle MacLaren, Adam Bernstein, Vince Gilligan, Colin Bucksey, Michael Slovis, Bryan Cranston, Terry McDonough, Johan Renck, Rian Johnson. Escrito por Vince Gilligan, Peter Gould, George Mastras, Sam Catlin, Moira Walley-Beckett, Thomas Schnauz, Gennifer Hutchison, John Shiban, J. Roberts. Com Bryan Cranston, Anna Gunn, Aaron Paul, Dean Norris, Betsy Brandt, RJ Mitte, Bob Odenkirk, Steven Michael Quezada, Jonathan Banks. IMDB.