Breaking Bad - Quarta Temporada

A saga de Vince Gilligan continua soando como um mini-manifesto libertário, mas agora ao mesmo tempo resolve discutir moral através de múltiplas ações de múltiplos personagens. Enquanto Skyler começa a se envolver nos planos de Walt, a questão sobre o que é certo e errado entra em conflito com o que é legal e ilegal. Durante toda a temporada, um cigarro (legal) é carregado por Jesse em seus inúmeros maços; o que esse cigarro contém de especial é uma outra substância escondida (ilegal) que pode ser usada para envenenar uma pessoa. Essa substância foi produzida sem a necessidade de ferir ninguém, e envenenar alguém seria uma ação necessária caso houvesse algum risco de vida das pessoas envolvidas, por causa da produção de uma terceira substância cuja produção também é ilegal, e combatida através de bilhões de dólares queimados pelo governo em uma guerra informal.

O final da terceira temporada de Breaking Bad termina com um assassinato. Um inesperado, apressado assassinato. O começo da quarta, portanto, realiza o mesmo ato. Porém, aqui, há um significado mais profundo, mais obscuro e mais metafórico. Ele tem a dizer sobre quem está no controle, e o quanto alguém pode controlar alguém. Ele incute na mente de Walter White, uma mente cujo cérebro, desconfiamos, está sofrente um processo químico que pode ou não alterar sua percepção da realidade e sua própria personalidade. Isso já fica claro na temporada anterior, mas nessa temporada ainda temos mais um apelo (o genético). No fundo, a maior virtude da série não se mantém apenas no espectro político da coisa, mas no humano, especialmente no filosófico: somos donos de nossas próprias ações, ou a influência do ambiente (e da genética, e das doenças ou de qualquer mudança química) exerce um poder quase que sobrenatural para nossas decisões do dia-a-dia?

Das frases marcantes, há várias, mas é mais uma vez da boca de Bryan Cranston que saem duas, em sequências: “I am the danger” (“eu sou o perigo”) e “I am the one who knocks” (“sou que que bate à porta”) faz parte de um dos melhores diálogos da série entre Walt e Skyler, pertencente a um excelente episódio do diretor de fotografia da série, Michael Slovis, “Cornered”.

Mas nada poderia ser mais marcante entre os personagens secundários do que a determinação e a astúcias da investigação a distância que Hank (Dean Norris) realiza a respeito das ligações entre o cartel de drogas, Gus Fring, a empresa alemã Madrigal e um inofensivo químico assassinado. E é aqui que aparece o caderno de anotações com uma dedicatória a “W.W.” (com direito a mais um ótimo diálogo entre Hank e Walter, quanto este apresenta pela primeira vez esta pista).

Dessa vez fico em dúvida sobre qual sequência de ação poderia figurar entre as melhores. Temos um tiroteio à distância iniciada por snipers em “Problem Dog” (Peter Gould, um diretor também de Better Call Saul), mas também temos outros dois momentos icônicos, que engrandecem a figura de Gus Fring. A primeira, localizada no distante ano de 1989, aprendemos, como já havíamos desconfiado, de onde veio o conhecimento de química que possibilitou Gus de iniciar seu império nos negócios (“Hermanos”). Com a direção de Johan Renck, este é um momento icônico para o personagem.

A segunda merece um novo parágrafo para descrever, pois faz parte dos quatro últimos episódios da temporada, que devem ser assistidos obrigatoriamente em sequência, sem parar. Ele é um filme de 3 horas em um universo criado com maestria por Gilligan. Sua primeira parte, “Salud”, é dirigida por ninguém menos que Michelle MacLaren, a especialista em cenas de ação, e que aqui não perde um segundo dos detalhes envolvendo a visita de Mike, Gus e Jesse ao Cartel, até sua derradeira sequência.

No entanto, é Scott Winant que a continua em “Crawl Space”, em um dos dois episódios que dirigiu na série. Esse é o momento em que a trama fica mais série e obscura, e onde diferentes personagens se cruzam em um emaranhado de interesses onde é difícil se situar. Há um momento em particular em que a direção de Winant atinge um perfeccionismo emocionante. É uma cena no deserto, vemos os personagens de longe, a paisagem ao fundo. Eles estão longe, mas o ouvimos falar. Uma nuvem passa por eles exatamente durante esse momento, e as pedras do deserto brilhante por um breve momento se tornam escuras, opacas, sem brilho.

Por fim, é Vince Gilligan em pessoa que desfaz todo esse clima tenso utilizando sua comédia tão atípica em momentos pontuais que concluem a trama na sequência de “End Times” e “Face Off”. Com a participação mais que especial de Mark Margolis como Tio Salamanca, ele protagoniza um momento impagável na sala da DEA, um momento construído com toda a calma do mundo em três sequências. “Face Off”, é preciso dizer, é um dos melhores episódios de toda a série e um dos melhores momentos no Cinema dessa década, mesmo se tratando de um episódio de televisão.

Aos poucos percebemos que as temporadas de Breaking Bad se assemelham muito em seus temas centrais, mas vão aumentando de intensidade conforme avançam para o final. Essa quarta, em específico, consegue ser ainda mais obscura que a terceira, engrandecer seus assuntos conforme eles vão ficando mais sérios (e os personagens acabam se envolvendo freneticamente em sua resolução) e ainda oferece um desfecho absolutamente irrepreensível, se a série quisesse terminar por aqui.

Felizmente, isso não aconteceu, e tivemos uma quinta temporada, a última, dividida em duas partes. E é para lá que este autor está se dirigindo, depois de participar, mais uma vez, deste universo tão realista quanto fantasioso, mas, acima de tudo, estilizado ao máximo, como uma homenagem à sétima arte, vinda da televisão.

★★★★★ Wanderley Caloni, 2016-07-16 imdb