Breaking Bad - Quinta Temporada

Assim como Tropa de Elite (1 e 2), Breaking Bad tem seu próprio arsenal para o campeonato de frases famosas dita ao longo da série. Cada temporada apresenta pelo menos uma, de “I am the Danger” a “Say My Name” até para frases que não são particularmente brilhantes, mas fecham diálogos memoráveis como uma cereja no bolo. Muitas dessas frases são ditas pelo protagonista interpretado por Bryan Cranston, mas eu diria que há uma bela de uma competição entre todos os inesquecíveis personagens.

Apesar de gostar muito de várias das frases do “químico do mal”, arrisco dizer que de todas ditas ao longo da série, possuo duas favoritas, e a primeira não é de Walter White, mas de um outro personagem: “You’re the smartest guy I ever met… but you’re too stupid to see… He made up his mind ten minutes ago.” (“Você é o cara mais esperto que eu já conheci… mas você é estúpido demais para perceber… que ele já decidiu o que fazer há dez minutos atrás.”).

Essa frase pertence ao início do episódio mais perfeito de toda a saga. O antepenúltimo da quinta temporada, entitulado Ozymandias. O nome vem do grego e diz respeito ao faraó egípcio Ramsés II. É o título de um soneto do poeta Percy Bysshe Shelley, composto junto com a chegada de fragmentos da pirâmide onde o faraó foi enterrado em um museu britânico. Shelly escreveu:

I met a traveller from an antique land
Who said: "Two vast and trunkless legs of stone
Stand in the desert. Near them, on the sand,
Half sunk, a shattered visage lies, whose frown,
And wrinkled lip, and sneer of cold command,
Tell that its sculptor well those passions read
Which yet survive, stamped on these lifeless things,
The hand that mocked them and the heart that fed:
And on the pedestal these words appear:
'My name is Ozymandias, king of kings:
Look on my works, ye Mighty, and despair!'
Nothing beside remains. Round the decay
Of that colossal wreck, boundless and bare
The lone and level sands stretch far away."

A história tem a ver em como os maiores feitos dos maiores reis, imperadores e etc de toda a humanidade eventualmente irão virar pó, serem esquecidos, conforme o nível de areia vai os encobrindo. Sim, esse é o episódio-queda de Heisenberg, e assim como o final da quarta temporada, é mais um ponto de escape perfeito para a série.

Já que, depois de Ozymandias, há ainda mais dois episódios, que fecham um arco lindo, tanto com o início da temporada quanto com o início da série. Resolve todas as questões pendentes e faz Bryan Cranston ganhar fácil o Globo de Ouro daquele ano (depois de ter sido indicado nos três anos anteriores, sem contar os cinco Emmys).

A questão é que, repetindo o feito na temporada anterior, de “To’hajiilee” a “Felina”, temos um filme composto de quatro episódios indispensáveis de serem assistidos mais de uma vez pelos fãs da série. Mais uma vez um roteiro primoso e direções inspiradas arrebatam todo aquele universo tão bem criado por Vinge Gilligam e o elevam a patamar de sétima arte.

O último episódio possui a segunda das duas minhas frases favoritas, essa de Walter White: “I did it for me” (“eu fiz por mim mesmo”). Esse é o insumo, a inevitável catarse, de um personagem cuja curva passou não apenas moralmente, mas quimicamente, de um inocente professor de química para o maior gênio do “crime” de produzir drogas.

Porém, a quinta temporada não se resume aos quatro últimos episódios, mas mantém sua qualidade do início ao fim. Aliás, o primeiro episódio, “Live Free or Die”, é uma distante chamada a um cliffhanger no final da série, já revelando alguns pedaços de informação a respeito do segundo aniversário de W.W. na história. Ou seja, desde a primeira até o início da quinta temporada, se passou basicamente um ano. Da quinta até seu final, um outro ano inteiro. (E a noção do tempo é perfeitamente marcada nos dois últimos episódios.)

Já “Madrigal”, o segundo episódio, revela mais do que desconfiávamos: Gus Fring é a ponta do iceberg. Conseguindo demonstrar com maestria como a indústria das drogas, graças à recompensa, se estrutura de maneira muito superior a qualquer tentativa de ataque do Estado, acaba revelando um óbvio de toda a série, até então escondida na entrelinhas: os personagens que vivem disso, quando estão vivos por muito tempo, são muito bons no que fazem.

O que nos leva a talvez o policial da narcóticos mais competente, ou empenhado, em desmembrar a operação Heisenberg. Hank Schrader (Dean Norris) já tem motivação o suficiente para não largar o caso que quase deu fim à sua vida duas vezes, mas irá precisar do dobro para levar a fim sua investigação na segunda metade da temporada, quando, exatamente no meio, e exatamente no banheiro do seu inimigo, este contempla a peça final de seu quebra-cabeças, que lá estava o tempo todo, mas que nunca seria descoberto por outra pessoa senão ele.

A sua descoberta e sua ação em seguida significaria o fim tanto de sua carreira quanto a de seu cunhado (isso para não falar da família). É uma decisão difícil e que Dean Norris carrega nas costas com seu jeitão policial dos anos 80. É preciso muita força de vontade para não virar fã de Hank nos últimos episódios, força essa só compensada pela atuação particularmente obcecada de Bryan Cranston, que magicamente consegue dar verossimilança a Walter White/Heisenberg mesmo nos momentos mais frenéticos da saga.

O fato é, não importa mais quais os motivos que causam as atitudes de Heisenberg, se é o câncer ou se é ele mesmo, mas sim as transformações iniciais, e onde elas desencadearam. Uma reação em cadeia que teve início um ano atrás (na série, na primeira temporada) e que hoje encontra seu inevitável desfecho.

★★★★★ Wanderley Caloni, 2016-07-16 imdb