Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças

Aug 18, 2018

Imagens

Por que as pessoas hoje em dia estão tão ansiosas em ser felizes e se livrar rapidamente das partes ruins de um relacionamento em suas mentes? A pergunta que o roteirista Charlie Kaufman (Quero ser John Malkovich, Adaptação, Anomalisa) e seu parceiro de costume, o diretor Michel Gondry (Natureza Quase Humana, “Rebobine, por Favor”, A Espuma dos Dias) fazem neste filme é: e se elas pudessem?

E o resultado, como dificilmente poderia ser diferente, é uma experiência visualmente inventiva com uma história ambiciosa sem ser pretensiosa. Em uma hollywood decadente, já dando sinais de ter entrado em um cataclisma vicioso com seus cada vez mais enlatados gêneros lucrativos (atualmente resumido em comédias românticas e filmes de super-heróis), Kaufman e Gondry ousam criar Cinema no melhor estilo: um roteirista e um diretor autorais buscando responder questões humanas através da sétima arte. Eles não são cineastas contratados para dirigir atores de sucesso em histórias pré-fabricadas. Eles trilham seu próprio caminho, são talentosos e merecem mais atenção dos espectadores que ainda ousam pensar sobre os filmes que assistem.

Aqui eles empregam um grupo enxuto, mas famoso, de atores, onde o núcleo central é o casal formado por Kate Winslet e Jim Carrey. Carrey, contrariando sua persona criada através de comédias estilo pastelão, faz aqui o rapaz tímido e abobalhado quando o assunto é mulheres. Já Winslet, uma peça fundamental de atuação contemporânea, que migra do seu maior blockbuster (Titanic) para trabalhos cada vez mais intimistas, possui o carisma e a competência para conquistar o espectador em apenas duas ou três cenas iniciais. O casal se encontra. A química não rola. E Winslet é aquela garota tresloucada do bem que consegue criar romance onde praticamente todos os filmes costumam falhar: a espontaneidade premeditada.

Eu não sei como é possível que Gondry harmonize sua criatividade sem limites em criar cenários e truques sem muito uso de computação gráfica (tornando sua textura mais orgânica, palpável) e ao mesmo tempo escolha um elenco tão afiado e os conduza para o cerne das histórias de Kaufman. A única coisa que eu sei é que, rapaz, esse filme funciona em todos os níveis. Nos encantamos pelo casal enamorado e pela forma do filme nos trazer a simbologia de sonhos e memórias. O filme é apenas sobre um experimento, mas dentro dele contém toda a questão explicada nos mais diversos níveis: ficção científica, sociologia, romance, mente e desejos humanos.

Sobre as trucagens, note, por exemplo, como quando entramos na mente de Jim Carrey o fundo dos cenários onde transita, uma rua ou biblioteca, são projeções ao fundo com uma fotografia ligeiramente diferente, sem foco ou com outro movimento, o que nos dá a sensação de deslocamento, de não-encaixamento. Ao mesmo tempo, perceba sua mente de espectador imaginando: estou vendo essa cena que parece fake, eu até imagino como ela é feita, mas ao mesmo tempo não consigo me desvencilhar da ideia de que ela funciona perfeitamente para ilustrar como as coisas funcionam em nosso consciente desacordado, preenchendo lacunas que não sabemos. Há rostos que nunca vemos, e nos sonhos continuamos sem conseguir vê-los. Há momentos que são eternos (como o próprio título sugere), como a personagem de Winslet se distanciando pela calçada, que se repetem como o refrão de uma música triste de despedida de várias formas diferentes. A tecnicidade de Gondry não é apenas um show à parte; ela está trabalhando a serviço do conceito, que é uma história de despedida através das lembranças, visitadas da mais recente até o inevitável encontro dos dois.

E não é só isso: Gondry como diretor mantém um controle que evita cair no lugar-comum onde 99% dos diretores cairiam. E posso provar com apenas um exemplo, o exemplo mais marcante do filme para quem lembra dele com certa nostalgia: quando Jim e Kate estão deitados no gelo olhando as estrelas. É importante que vejamos as estrelas? Claro que não, é o primeiro encontro deles, e só o fato de estarem juntinhos olhando para o mesmo lugar é que se torna relevante. Então Gondry faz o que nenhum diretor medíocre faria: ele não mostra o céu estrelado. E com isso ele nos faz ganhar intimidade com o casal. Gondry não está tentando nos fazer nos imaginar no lugar daquele casal, ele quer que nós observemos como se constrói uma história de amor. Estamos olhando como os amigos do casal, assistindo em primeira mão como eles se conheceram e se apaixonaram.

Enquanto isso, Kaufman nos mantém em alerta com os detalhes da história que vão amarrando toda a trama. No começo o personagem de Carrey tem um impulso, o único impulso da história inteira que esse personagem tão receoso tem. E seu receio continua em sua mente, quando ele começa a ouvir as vozes de fora, da equipe do serviço de apagamento de memória, e vai descobrindo que foi enganado por um rapaz mais desajeitado com garotas ainda, interpretado por Elijah Wood (“ele roubou sua calcinha”). Atravessando diferentes formas de enxergar a mente humana, desde freudiana aos traumas básicos de humilhação, a experência dentro da mente de Carrey é o grosso do filme e merece cada detalhe, pois é nesse momento que a história, o conceito e o Cinema convergem para um fim comum. Por fim, mais tarde vamos preenchendo as lacunas do que acontece no começo do filme, conforme vamos entendendo quem é Clementine (a personagem de Winslet) e como ela deve ter mudado, de certa forma, e ainda que ligeiramente, o meticuloso e amedrontado Joel (Carrey).

Isso nos leva até o momento crucial onde as histórias se juntam. E (SPOILER!) quando Joel parece utilizar suas próprias memórias de Clementine para saber o que fazer quando esquecê-la completamente (ou, na visão mais poética, para os espectadores mais apaixonados, quando ele ouve um sussurro vindo do além), e eles se encontram, e eles percebem que seu recém-relacionamento já aconteceu, e escutam um do outro todas as mágoas e os defeitos que um enxerga no outro, e surge a grande questão: vale a pena viver um romance onde ambos vão se ferir? Ou, se perguntarmos da maneira Kaufmaniana: vale a pena repetir os erros do passado porque no meio desses erros existirá o significado da própria vida, que são as próprias experiências, com o lado bom e ruim ao mesmo tempo? Por não existir resposta pronta, e o filme apenas ligeiramente sugerir um final feliz (sem ser realmente feliz, se você entendeu a questão) é o que torna Brilho Eterno daqueles filmes que merecem ser vistos e revistos constantemente.

Wanderley Caloni, 2018-08-18. Eternal Sunshine of the Spotless Mind. EUA, 2004. Escrito por Charlie Kaufman, com história por Kaufman, Michel Gondry e Pierre Bismuth. Dirigido por Michel Gondry. Com Jim Carrey, Kate Winslet, Tom Wilkinson, Mark Ruffalo, Kirsten Dunst e Elijah Wood. IMDB.