Bróder

Wanderley Caloni, October 26, 2010

A história do estreante diretor Jeferson De, cuja sessão em que estava presente tive o privilégio de participar, inicia com uma grande sequência sem cortes em que Macu desce a ladeira de sua casa pelos becos e ruas do bairro; uma cena que, além de nos mostrar o nível de intimidade do protagonista com seus vizinhos, ainda dá uma ideia muito boa da extensão desse ambiente. A música de abertura, inicialmente não fazendo parte do ambiente, se transforma em música de rádio. Podemos ver essa brincadeira acontecer em quase toda a trilha sonora, que corajosamente escolhe não salpicar as cenas de música, criando tensão em várias cenas simplesmente por diálogos exaltados e movimentos de câmera.

Com alguns artifícios conhecidos como plano-sequência já citado no primeiro parágrafo e o “rack focus” para denotar o “sujeito do mal” enquanto Macu anda pelas ruas de Capão Redondo ou o enquadramento do carrão de Jaiminho pelo corredor estreito onde ele para demonstram que o diretor começa sua carreira experimentando o que havia estudado, e se tenta usar várias técnicas ao mesmo tempo, pelo menos as escolhe seletivamente, nunca abusando da auto-indulgência.

Com elementos que trazem identidade à vida de classe pobre da capital paulista, como garrafas de cerveja dentro de uma sacola de feira, ou a simpatia de benzedeira

Também são trazidos sinais contemporâneos, como a troca de religião da madrasta de Macu (da católica para a evangélica), ao mesmo tempo que alfineta essa religião (o pastor fala pra Jaiminho: “vamos passar lá na igreja pra agredecer todas essas bênçãos”).

Escolhendo uma fotografa cinzenta para o Capão Redondo principalmente, e uma coloração um pouco mais viva para o resto das locações (especialmente o campo de golfe onde está seu empresário), o filme consegue nos localizar facilmente, bastando prestarmos atenção, mesmo que inconscientemente, no nível de saturação da paleta de cores.

O aparecimento de Jaiminho, o jogador de futebol famoso em seu carrão, enquanto uma família chora na sarjeta pela morte de um ente querido, ignorado por todos em volta, demonstra bem que aquela morte faz parte de uma rotina que não assusta mais, enquanto o aparecimento do jogador é uma novidade que chama a atenção de todos.

O enquadramento único em que vemos todos os participantes do aniversário de Macu seria como uma foto final de família, ou uma santa ceia, algo do gênero, pois adquire um significado especial por não ter sido filmado com cortes selecionados, mas sim de um fundo, onde vê-se todos os participantes ao mesmo tempo.

A história resolve gastar um tempo demasiado com o drama da ex-namorada de Jaiminho e sua gravidez, especialmente na cena em que estão ela e sua mãe conversando. Mesmo assim isso não atrapalha o desenvolvimento da história principal; antes, já firma mais ainda o caráter do menino-jogador, um traço importante para o que veremos ser transferido no final da trama.

A corrida dos três irmãos para o carro em caminhos distintos, junto da dança de padrasto e madrasta, ocorre de forma fluida, exatamente pelos cortes bem selecionados proporcionarem ao espectador uma impressão de movimento contínuo e no ritmo da música que toca.

O fato das blitz serem preconceituosas por natureza (abordam os negros no carrão) também é abordado.

A ira de Macu tentando obter a arma de novo dentro do carro demonstra o poder de interpretação desse ator, que consegue, no peso certo, mostrar o desespero de Macu para que o plano continue dentro do planejado.

Uma das falas bordões, dita por Macu após o padrasto tentar usar a linguagem dos manos: “Não é bróder que fala: é manu, manu!”

No final do drama, a câmera foge do foco em Macu agonizando, fazendo uma voadora pelo Capão Redondo: essa história poderia acontecer em qualquer lugar, com qualquer um; ninguém ficou sabendo, e ninguém nunca sabe.

Imagens e créditos no IMDB.
Bróder ● Bróder. Bróder (Brazil, 2010). Dirigido por Jeferson De. Escrito por Newton Cannito, Jeferson De, Laura Malin. Com Caio Blat, Jonathan Haagensen, Silvio Guindane, Cássia Kis Magro, Ailton Graça, Cintia Rosa, Zezé Motta, Lidiane Lisboa. ● Nota: 3/5. Categoria: movies. Publicado em 2010-10-26. Texto escrito por Wanderley Caloni.


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