Bruna Surfistinha

Wanderley Caloni, March 15, 2011

O momento que resume a ascenção de Bruna e ao mesmo tempo a visão do primeiro trabalho de Marcus Baldini é quando, em seu discurso na festa preparada por sua amiga, ela diz que acredita em si mesma e encoraja seus antitriões a fazerem o mesmo, pois se o fizerem, “conseguirão chegar aonde eu cheguei”. E é precisamente nesse ponto que o filme deixa de ser uma visita convencional ao mundo da prostituição e vira uma discussão instigante sobre a capacidade das pessoas de fazer o seu melhor, não importando em que profissão ou atividade.

Menina tímida de classe média, vista pelos garotos como mero objeto sexual, e o filme faz um paralelo curioso, mas não determinante, com sua futura profissão, Raquel geralmente se isola dos seus colegas na escola. Com uma família que aparenta não lhe dar a devida atenção em uma fase geralmente complicada da vida, decide fugir de casa, muito embora os reais motivos de Raquel nunca sejam revelados de fato, e esse é mais um ponto positivo do filme, que afinal de contas irá contar não a história de Raquel, mas de Bruna, que foi o que ela se tornou após tomar essa decisão.

A transformação de Raquel até se tornar Bruna, aliás, merece créditos por estar sobriamente equilibrada nos ombros de Deborah Secco, que consegue criar de forma competente a ponte que existe entre a menina cabisbaixa, desengonçada e que fala baixo, na mulher dona de seu próprio caminho, independente em um mundo que facilmente lhe dá as costas.

A narração em off, uma solução convencional para trazer à tona ao espectador os sentimentos e reflexões de Bruna, torna-se um caminho extremamente eficaz para separar a Bruna do passado e a do futuro, que analisa em “flashback” os caminhos que tomou, e que, em vez de se esconder nas palavras, corajosamente demonstra orgulho por ter vivido e vencido tudo que passou.

A participação sensível de Cássio Gabus Mendes como primeiro cliente e companheiro em momentos-chave da narrativa o coloca em uma posição de destaque durante toda a história, ao mesmo tempo que dá a correta impressão de alguém que se importa com a protagonista e que sempre a mantém em contato, e é admirável notar como suas aparições são encaixadas de forma tão orgânica com o próprio desenvolvimento da personagem.

Com uma invejável escolha da trilha sonora durante toda a narrativa, é igualmente corajosa a escolha de sumir com ela durante os momentos pontuais e de maior tensão, como se o filme quisesse reproduzir fielmente o que aconteceu, em detrimento às passagens maiores de tempo, mais abertas à subjetividade.

Com uma direção firme, Baldini reforça a introspecção da personagem buscando, sempre que possível, deixá-la em foco completo, com o cenário aparecendo muitas vezes embaçado e difuso, como quando Raquel aparece pela primeira sozinha nas ruas, mas que em outros momentos funciona como reforçador de que o que estamos vendo são memórias de acontecimentos de um passado já distante.

A passagem maior do tempo, como quando Bruna narra a rotina e as diversas aventuras com seus clientes, é feita com o uso de cortes que transitam com uma fluidez elegante, nunca tornando a experiência desinteressante. Da mesma forma, há a consciência que uma história maior está sendo contada, e mais uma vez é acertada a decisão de não se reter mais que o necessário em momentos de sexo, passando sempre o essencial para o espectador, sem exibicionismo gratuito, como na famigerada e vergonhosa época das pornochanchadas do cinema nacional.

Aliás, não é sempre que vemos decisões corajosas como essa em uma produção notadamente comercial, e é sempre uma agradável surpresa notar como o cinema brasileiro tem se tornado aos poucos resgatador das discussões mais pertinentes de nossa sociedade atual.

Imagens e créditos no IMDB.
Bruna Surfistinha ● Bruna Surfistinha. Bruna Surfistinha (Brazil, 2011). Dirigido por Marcus Baldini. Escrito por José Carvalho, Homero Olivetto, Raquel Pacheco, Antônia Pellegrino, Jorge Tarquini. Com Deborah Secco, Cássio Gabus Mendes, Drica Moraes, Fabiula Nascimento, Cristina Lago, Guta Ruiz, Clarisse Abujamra, Luciano Chirolli, Sérgio Guizé. ● Nota: 3/5. Categoria: movies. Publicado em 2011-03-15. Texto escrito por Wanderley Caloni.


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