Cabra Marcado Para Morrer

O documentário que Eduardo Coutinho começou a produzir nos anos 60 e que foi interrompido após o golpe militar — tendo 40% do roteiro filmado e apreendido pela polícia como material subversivo — vira um filme completo só na década de 80, com a reabertura política e o reencontro do diretor e sua película. E não apenas isso: o reencontro da história de Elizabeth Teixeira, a viúva de João Pedro, líder dos camponeses assassinado brutalmente na época, e do cinema revolucionário de Glauber Rocha que havia ficado no esquecimento.

O filme possui uma das maiores virtudes de um documentário: partir de uma história particular para o universal. O assassinato de João Pedro foi um evento que mexeu com a mulher e seus onze filhos de maneira permanente, mas também cortou as raízes de uma revolta que havia se formado contra os grandes proprietários de terra e a exploração descarada de seus trabalhadores, uma revolta que poderia ter significado uma mudança radical do panorama social brasileiro.

Para contar essa história através de lembranças os colegas de João Pedro são chamados, pessoas que haviam feito as filmagens de Cabra de 60 e interpretavam eles mesmos. O filme viaja de passado a presente com o uso da fotografia cinza e colorida de um Brasil que mudou apenas de cor. Cada personagem realiza a função de interpretar um papel do evento particular, mas também representa a função de cada um de nós em uma sociedade partida, multifacetada e que não consegue mais se reunir para reivindicar seus fundamentais direitos.

A partir do drama pessoal de cada participante daquela história Coutinho abre uma lupa através do seu gigantesco microfone e sua equipe peregrina, que consegue arrancar frases de efeito a partir de manifestações espontâneas, e que por isso mesmo ganham uma força ainda maior. É o Brasil falando. Coutinho apenas dá o caminho.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2012-09-20 imdb