Capitão América: Guerra Civil

Esse não é um filme do Capitão América. Mas acho que todos vocês já estão acostumados com esses títulos bizarros e tão insignificantes quanto a história que é apresentada. Desde seu filme solo, o personagem interpretado por Chris Evans quase nunca consegue manter as rédeas de um protagonista. Quando está com os Vingadores, então, particularmente com o Homem de Ferro (Robert Downey Jr.), essa suposta “protagonice” some completamente. Stark, aliás, está bem sóbrio, e quase lembra o governo Bush em seus discursos de guerra (se não estivéssemos aqui falando, é claro, de qualquer governo).

No entanto, Avengers IV não é um filme ruim pelas suas premissas. Ele tem ótimas. Ele discute, assim com o recente Batman Vs Superman, a questão de quem vigia os vigilantes. Nenhum dos dois filmes, no entanto, consegue ir tão fundo e ser tão depressivo e complexo a esse respeito quanto o inestimável Watchmen (esse, sim, com o nome certo), de sete anos atrás. Enquanto a graphic novel de Alan Moore consegue um tom dramático em cima de personagens fantasiados, aqui temos o tom fantasioso da quase sempre medíocre Marvel, que acumula talentos em sua equipe de computação gráfica enquanto mantém sob “controle criativo” seus roteiristas pelo bem das bilheterias.

Porém, este é um filme que contém ótimos diálogos, e consegue focar neles por um bom tempo, o que é uma ótima notícia para um sub-gênero acostumado com explosões e lutas de ação frenéticas, regadas a invencionices e super-poderes cada vez mais repetitivos. Infelizmente, nenhum dos ótimos diálogos (ou frases) é levado junto com a trama, e acabamos tendo uma ótima introdução sobre a intromissão dos governos do mundo em tentar controlar a iniciativa privada dos Avengers (instituindo uma espécie de “limite de banda” sugerido por um cartel de telecoms nacional recentemente, onde trafega apenas o que eles quiserem, “pelo bem de todos”, claro). O gancho para essa discussão, como sempre, são as baixas de civis durante as operações da agência especial. A sugestão é que a ONU cuide deles. O sonho de todo estatista: super-poderes piores que os originais de imprimir dinheiro ilimitado e mandar pessoas morrerem em guerras em busca da paz.

No entanto, metade da equipe não aceita os termos apresentados, e a outra metade aceita, assinando um tratado contendo quase o mundo inteiro. E é isso que gera a tal “Guerra Civil” do título (mais um equívoco, pois para guerra ainda falta bastante coisa). No entanto, os roteiristas se esforçam ao máximo para nunca deixar nenhum dos lados com gosto de vilão. Para isso, até introduz um novo vilão, que é usado para mostrar como há coisas piores do que um tratado mundial.

Com ótimas participações de Paul Bettany como Visão e Robert Downey Jr como Tony Stark, quem acaba divertindo moderadamente é o novo Homem-Aranha, vivido pelo jovem Tom Holland (“O Impossível”) e que tem uma Tia May igualmente jovem (e altamente catável, vivida por Marisa Tomei). Sua história inteira consegue praticamente ser contada em dez minutos, o que irá nos poupar um terceiro “Begins” desse personagem. Espero. De qualquer forma, nos créditos finais (em que ele aparece) diz que o Homem-Aranha irá voltar. De alguma forma misteriosa, isso não me parece uma enorme surpresa.

Até porque o personagem nem é inserido organicamente, e apenas conta como mais um em uma equipe de diversos heróis surgidos de seus filmes-solo (ou não) e que se misturam em uma miscelânea de “quem se importa?”, já que nenhum deles é particularmente notável. Exceto, claro, pelos seus efeitos digitalmente empolgantes. E mais uma vez a indústria do sub-gênero de herói mostra que também não se importa nem um pouco com o destino de seus personagens, trazendo de volta à ativa um que havia acabado de se aposentar.

Mesmo assim, há alguns traços curiosos de toda essa ação sem sentido. Um deles, particularmente interessante, é a forma com que as mudanças de cena ocorrem, muitas vezes quase constituindo uma sequência inteira sem cortes. Note as mudanças de plano quando um determinado personagem pula da janela, ou quando outro cai em um túnel de viaduto, e logo a câmera vira para os carros em sua direção. Esse jogo ágil de montagem e de direção conseguem divertir se dar náuseas (a não ser que você esteja assistindo em 3D).

Eu gostaria de poder dizer que houve vários momentos-cabeça no filme, graças a diálogos inspirados que prometiam trazer à tona várias questões reais em um mundo dominado por super-heróis, e que teriam que ser trabalhados em um mundo real. Porém, tudo não passa de um chamariz para mais batalhas sem sentido e mais explosões idem (ou, nesse caso, luta). E, mesmo se levarmos em conta apenas as lutas, não há nada muito grandioso quanto os últimos Avengers. Talvez esse seja o motivo de nomear este filme como Capitão América, pois, afinal de contas, para um grupo que já destruiu uma cidade, não é nada demais essa guerrinha intimista dos heróis.

Além disso, me incomoda profundamente alguns elementos razoavelmente competentes do elenco, como Scarlett Johansson em Viúva Negra, nunca poder protagonizar seu próprio filme. Até porque suas lutas talvez sejam as mais inspiradas. Mas esse sentimento logo passa ao lembra que, se isso ocorrer, será apenas mais uma aventura genérica de um passatempo chamado “ganhar dinheiro” que a Marvel está sabendo fazer. No momento, o único consolo é a pipoca, essa companheira desses filmes cada vez mais grudados um no outro.

Dessa forma, me despeço do texto de “Capitão América: Guerra Civil” sabendo que não dediquei-me muito a destrinchar alguns detalhes mais específicos de alguma atuação ou roteiro. Desnecessário. Se você consegue assistir a esses filmes e se empolgar, não será a falta de motivos que o fará mudar de ideia e reavaliar como o tempo gasto com essas bobagens flerta justamente com isso: apenas tempo gasto.

★★★☆☆ Wanderley Caloni, 2016-05-31 imdb