Capitão Fantástico

2017/11/25

“Poder para o povo. Abaixo o sistema.” Essas duas frases tipicamente anarquistas resumem a filosofia de mais este filme sobre uma família disfuncional. A virtude deste filme é que ele nos faz enxergar a sociedade atual do ponto de vista de uma outra forma de viver. E se todos nós fôssemos criados para sermos filósofos e seguir a razão? Bom, se isso fosse possível seria o paraíso na Terra.

Porém, o que Capitão Fantástico convenientemente ignora nessa equação é que existem dissidências argumentativas em torno das questões mais primordiais do convívio humano. A chave para ignorar essa realidade está em aceitar apenas um ponto de vista: o do pai daquelas crianças.

Porque, imagine, só, se uma delas discorda do que o pai ensina, ele abre a questão para debate com todos presentes. E a criança não consegue bolar um contra-argumento. Por quê? Porque só existe um argumento aqui: o que o pai direcionou durante toda a infância delas.

Então esse “debate” é inócuo. Não é de verdade. É só encenação. Assim como quando a esquerda clama por diversidade de ideias, se esquecendo de mencionar que a diversidade só deve acontecer se todos os participantes concordarem com algumas ideias prévias.

Dessa forma o filme de Matt Ross se torna genial desde sua concepção, pois apresenta um microcosmos que revela a hipocrisia e os valores artificiais por trás de movimentos totalitaristas. (E lembrando que, ainda que você seja um anarquista, não deixa de ser totalitária a concepção de que todos devem seguir aquele modelo.)

Por fim, a história ainda acerta diretamente no alvo ao conceber que aquele pai chegou a todas as respostas sobre a vida, o universo e tudo mais, e apenas repassa através de livros esse conhecimento para suas crianças, que é justamente a premissa de todo intelectual afogado em seu próprio ego.

Agora vamos ao filme de fato.

A grande sacada para o espectador comum de Capitão Fantástico é lhe dar uma oportunidade de enxergar a realidade em que ele vive sob os olhos de pessoas que vivem de uma maneira radicalmente diferente. Elas plantam, colhem e caçam seu próprio alimento. Elas leem livros não porque está no currículo escolar, mas porque elas querem (elas vão além do programa concebido pelo pai). Elas correm riscos absurdos em meio à natureza porque, de acordo com a concepção desta família, esta é a forma do homem se relacionar com o ambiente onde vive.

Mas tudo o que o pai dessas crianças faz é por um bem maior: seguir à risca o plano de sua mulher, que começa o filme hospitalizada, mas logo decide se matar. O pai não poupa seus filhos, sempre dizendo a verdade a todo momento, e não censurando conhecimento que elas iriam, em nossa sociedade, adquirir depois de adultos (como explicar o que é ter relações sexuais para um garoto de 8 anos). O personagem de Viggo Mortensen, Ben, é um homem absurdamente bem-intencionado, pacífico e ponderado. Ele segue seu objetivo maior movido pelo amor que sente por essa mulher. Seus filhos compreendem a força desse sentimento e estão irremediavelmente juntos na missão maior de suas vidas: se tornarem seres humanos completos e independentes.

O que gera alguns problemas explorados pelo filme, principalmente na visão do filho mais velho, Bodevan. George MacKay simplesmente mata a pau quando a família pousa em um acampamento e conhece uma adolescente americana padrão. Seu conhecimento erudito está em cem e seu conhecimento da “vida real”, ou da sociedade como conhecemos, está mais próximo do zero. Isso reflete em seu primeiro beijo, onde automaticamente em sua visão ela se torna a esposa ideal, e onde ele não poupa comentários honestos com sua futura sogra a respeito de sentimentos e uma eventual penetração em sua filha.

Bodevan passou em todas as melhores faculdades do país. O que revela também que o sintoma de falta de vivência de Bodevan também existe no mundo acadêmico (e talvez por isso quase todos intelectuais deste mundo sejam mais ou menos comunistas/anarquistas/etc).

Por outro lado, as virtudes da educação em casa não apenas demonstram a óbvia decadência do ensino estatal nas escolas, mas a inerente alienação a que todas as crianças são submetidas. Em mais uma cena icônica, os sobrinhos de Ben, de 12 e 13 anos, são incapazes de sequer dar uma definição clara do que é a Declaração dos Direitos dos Estados Unidos, enquanto seu filho de 8 não apenas sabe de cor as emendas, como consegue pensar a respeito delas e expressar sua própria opinião. Note que isso está mais longe da ficção do que na vida real, em todo o dito mundo civilizado.

Tudo isso você encontra em Capitão Fantástico além de suas virtudes técnicas, que não são poucas. O filme possui uma invejável trilha sonora e um diretor que cria enquadramentos belíssimos (como o reflexo de Ben pelo vidro de Steve, o ônibus que leva todos eles por este road movie) e com um conceito que o roteirista (também Matt Ross) explora de todas as maneiras possíveis em diálogos sutis e reveladores. Não precisamos de narração alguma para entender o que está acontecendo.

O resultado é um filme que faz pensar em várias questões, ao mesmo tempo que não nos dá resposta para nenhuma delas. E esse é um traço de um grande filme, além do traço da própria vida: caótica, injusta e sem respostas prontas. E apenas nesse quesito a vida é ligeiramente maior do que o filme em si explora.

★★★★★ Captain Fantastic. USA, 2016. Direction: Matt Ross. Script: Matt Ross. Cast: Viggo Mortensen (Ben). George MacKay (Bodevan). Samantha Isler (Kielyr). Annalise Basso (Vespyr). Nicholas Hamilton (Rellian). Shree Crooks (Zaja). Charlie Shotwell (Nai). Trin Miller (Leslie). Kathryn Hahn (Harper). Edition: Joseph Krings. Cinematography: Stéphane Fontaine. Soundtrack: Alex Somers. Runtime: 118. Ratio: 2.35 : 1. Gender: Comedy. Release: 22 December 2016. Category: movies Tags: paulocoelho

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