Cara Gente Branca

2017/05/24

Esta é uma série Netflix que fez sua lição de casa e está aproveitando a onda de discussões sobre racismo para inserir um trabalho que tenta fazer o espectador pensar em quanta besteira os militantes das minorias conseguem discutir ao mesmo tempo.

Estruturado em capítulos de 20 minutos onde os bastidores da universidade de Winchester é esmiuçado pelo ponto de vista de cada um dos seus personagens, o primeiro episódio é sobre a radialista mestiça que tem um programa de rádio onde “denuncia” o racismo velado enquanto namora um rapaz branco, o segundo episódio é sobre um estudante/jornalista que tem “medo de falar sobre a verdade dos outros” e mal consegue se assumir gay, e o terceiro episódio é sobre um dos candidatos a presidente do grêmio estudantil, filho de um pai influente na política que aprendeu que política é apenas dizer o que as pessoas querem ouvir. Todos esses episódios de passam no mesmo espaço de tempo e giram em torno do mesmo evento: a festa de “blackface” de um grupo de brancos da universidade.

A série busca discutir através de diálogos e alguma agressão temas da época atual, como as recentes discussões em torno do #BlackLivesMatter, que basicamente é a pauta retórica da esquerda representada em jovens estudantes que parece de fato tentar dialogar a respeito de ideias e usar a política e o jornalismo como meios de influenciar mentes, mas que no fundo quer apenas fazer estardalhaço e ser ouvido quando não têm nada a dizer. Nesse sentido a faculdade vira o microcosmos de um país, e da mesma forma parece usar temas pseudo-polêmicos como cortina de fumaça para o velho status quo.

Com um elenco que promete (talvez no futuro) e uma edição ágil em torno de um design de arte estilizado para soar pomposo, o roteiro e a direção dão voos baixos em torno de uma série que promete chegar em pontos de conflitos interessantes. Resta saber se são promessas vazias, como toda agenda política, ou se trata de entreter e fazer pensar. Torço pela segunda opção, mesmo sabendo que a pauta da série culturalmente faz pararmos de pensar.

Nessa temporada infelizmente a pauta esquerdista já afeta os resultados dramáticos fazendo pouco de cada um de seus curiosos personagens, e pode ser entendido como uma grande piada a respeito desses movimentos ou, se a série realmente está tentando se levar a sério, lembra algo como um House of Cards para crianças. E as discussões políticas e sociais são de fato para os infantes de nossa era, que enxergam o mundo preto e branco e que não dispõem de discernimento suficiente para sair de seus pequenos dramas.

É interessante notar como o tema do racismo sempre vai e volta na forma de velhas frases clichês sobre escravidão e História, com um certo bom humor e quase nenhum conteúdo. Há também historietas sobre gays, minorias, e outros tipos de fábulas modernas. O mais frustrante é a série nunca conseguir dar o tom ou a complexidade desejados para esses assuntos. Ou talvez eles realmente não tenham tal complexidade, pois são um meio engodo para as massas de manobras.

O que é uma pena, já que a direção e o roteiro conseguem harmonizar de maneira eficiente uma estrutura burocrática de um episódio por personagem, mas que ao mesmo tempo adiciona para a discussão. Sempre voltando aos mesmos eventos sob diferentes pontos de vista, essa seria a forma poderosa de demonstrar como cada ser humano é único em sua beleza interior.

Infelizmente, o efeito é contrário, pois mostra como todos estão, de fato, cada um olhando para seu próprio umbigo. E nada disso é novidade. Frank Underwood já demonstrou com muito mais propriedade como funciona a lógica de quem detém as armas para mantê-las em seu poder. Nem “Dear White People” nem “Mr. Robot” conseguirão se desvencilhar do discurso do establishment. Resta saber se há um subtexto para negros que pode ser aproveitado por eles. Talvez no fundo essa seja uma mensagem secreta criticando o quanto as pessoas estão desorganizadas em seus pensamentos.

★★★☆☆ Título original: Dear White People. País de origem: USA. Ano 2017. Direção: Justin Simien. Nisha Ganatra. Tina Mabry. Roteiro: Leann Bowen. Njeri Brown. Chuck Hayward. Justin Simien. Jack Moore. Elenco: Logan Browning (Samantha White). Brandon P Bell (Troy Fairbanks). DeRon Horton (Lionel Higgins). Antoinette Robertson (Colandrea 'Coco' Conners). John Patrick Amedori (Gabe Mitchell). Ashley Blaine Featherson (Joelle Brooks). Giancarlo Esposito (Narrator). Marque Richardson (Reggie Green). Nia Jervier (Kelsey Phillips). Edição: Phillip J. Bartell. Steve Edwards. Fotografia: Jeffrey Waldron. Trilha Sonora: Kris Bowers. Duração: 30. Gênero: Comedy. Tags: netflix

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