Carmel

Oct 28, 2012

Imagens

Que filme odiável. Não que ele seja odiável do começo ao fim. Houve uma tentativa realmente sincera de quem vos escreve de tentar decifrar a narrativa difusa e aparentemente amadorística de um filme que estava sendo apresentado quase que como um tributo à vida do diretor Amos Gitai (presente na sessão) e sua mãe, que viveu as agrúrias do povo judeu desde muito antes da Segunda Guerra. A base da história são as cartas dela, que teoricamente poderiam fazer eco com décadas e mais décadas da visão judia sobre seu povo e suas relações com o mundo.

No entanto, o que mais vemos é o despreparo de diretor e montador em conseguir unir pontas que se confundem entre cenas documentais pré-ensaiadas, leituras de cartas de início a fim, cenas fictícias recriadas ou como peças de teatro ao ar livre ou como telenovelas da pior qualidade e, ainda, sequências inteiras que tentam unir todos esses elementos simplesmente sobrepondo-os com o uso de efeitos que poderiam ser comparados à festas de aniversário em um buffet infantil.

A falta das informações básicas sobre o que estamos vendo revela, além do amadorismo ensaiado, a descarada auto-indulgência dos seus criadores, crentes, talvez, que as importância do diretor e de sua vida fosse tão visível para todos os seres humanos que qualquer tentativa de criar um pano de fundo para o filme fosse inútil e óbvio demais. Bom, não é. Não me importa quem fez o filme e quais são os membros da família de quem fez o filme que nele aparecem. Menos ainda me importa sobre a confecção do filme no momento em que o estou vendo.

No entanto, o filme começa a se tornar odiável quando percebemos estarmos chegando em sua(s) conclusão(ões) e que não há qualquer menção ou relação entre as vidas que foram mostradas e com a vida do povo judeu de maneira geral. Se há, são pequenos traços culturais que, além de ignorar por completo que a maioria da população mundial não saber o que significam, ignoram que a maioria da população conhece o maior conflito da história ainda em andamento, com o povo palestino. Ignorar não só o povo judeu como um símbolo de resistência, como ignorar o povo da palestina como membros legítimos de sua rivalidade religiosa é o ponto mais controverso e enigmático da película. Qualquer interpretação pode ser dada. No meu caso, prefiro entender isso como um sinal de mal extremo mal gosto para com os espectadores e para com o Cinema. E isso em uma Mostra da Sétima Arte.

Wanderley Caloni, 2012-10-28. Carmel. Carmel (Israel, 2009). Dirigido por Amos Gitai. Escrito por Amos Gitai. Com Amitai Ashkenazi, Ben Eidel, Samuel Fuller, Efratia Gitai, Ben Gitaï, Masha Itkina, Makram Khoury, Jerome Koenig, Amos Lavi. IMDB.