Carmel

Que filme odiável. Não que ele seja odiável do começo ao fim. Houve uma tentativa realmente sincera de quem vos escreve de tentar decifrar a narrativa difusa e aparentemente amadorística de um filme que estava sendo apresentado quase que como um tributo à vida do diretor Amos Gitai (presente na sessão) e sua mãe, que viveu as agrúrias do povo judeu desde muito antes da Segunda Guerra. A base da história são as cartas dela, que teoricamente poderiam fazer eco com décadas e mais décadas da visão judia sobre seu povo e suas relações com o mundo.

No entanto, o que mais vemos é o despreparo de diretor e montador em conseguir unir pontas que se confundem entre cenas documentais pré-ensaiadas, leituras de cartas de início a fim, cenas fictícias recriadas ou como peças de teatro ao ar livre ou como telenovelas da pior qualidade e, ainda, sequências inteiras que tentam unir todos esses elementos simplesmente sobrepondo-os com o uso de efeitos que poderiam ser comparados à festas de aniversário em um buffet infantil.

A falta das informações básicas sobre o que estamos vendo revela, além do amadorismo ensaiado, a descarada auto-indulgência dos seus criadores, crentes, talvez, que as importância do diretor e de sua vida fosse tão visível para todos os seres humanos que qualquer tentativa de criar um pano de fundo para o filme fosse inútil e óbvio demais. Bom, não é. Não me importa quem fez o filme e quais são os membros da família de quem fez o filme que nele aparecem. Menos ainda me importa sobre a confecção do filme no momento em que o estou vendo.

No entanto, o filme começa a se tornar odiável quando percebemos estarmos chegando em sua(s) conclusão(ões) e que não há qualquer menção ou relação entre as vidas que foram mostradas e com a vida do povo judeu de maneira geral. Se há, são pequenos traços culturais que, além de ignorar por completo que a maioria da população mundial não saber o que significam, ignoram que a maioria da população conhece o maior conflito da história ainda em andamento, com o povo palestino. Ignorar não só o povo judeu como um símbolo de resistência, como ignorar o povo da palestina como membros legítimos de sua rivalidade religiosa é o ponto mais controverso e enigmático da película. Qualquer interpretação pode ser dada. No meu caso, prefiro entender isso como um sinal de mal extremo mal gosto para com os espectadores e para com o Cinema. E isso em uma Mostra da Sétima Arte.

★☆☆☆☆ Wanderley Caloni, 2012-10-28 imdb