Casadentro

Jun 22, 2015

Imagens

O realismo do filme quase pode ser sentido, tamanho é seu ritmo naturalista. E o uso de luz “natural”, seja do sol ou da precária eletricidade comunzinha (ou até de velas, quando a energia acaba), apenas reafirma essa sensação nesse trabalho inicial da peruana Joanna Lombardi, que estreia nos longa-metragens com esse trabalho escrito e dirigido. Sim, ela logo vai estrear Solos (Alone), que já passou no festival de Amsterdã, e esse trabalho é de 2013. Porém, estamos no Brasil. É que é difícil se acostumar com um Cinema tão defasado das distribuidoras tênis verde por aqui.

Curioso que em determinado momento duas personagens conversam em torno da TV, que está passando novela. Pois bem, a história desse filme tem tudo que uma novela não tem: ele ganha contornos em sua obviedade do dia-a-dia, em uma rotina que parece se arrastar lentamente através dos quadros parados. Porém, não se engane, pois é justamente isso que a diretora Lombardi quer: sua interpretação daquela realidade. Isso porque quando estamos imersos em nossa realidade – muito semelhante a essa, mesmo que com histórias distintas – não refletimos sobre ela. Aqui existe essa chance, e com um espaço amplo para julgamentos de valor, em uma trama praticamente sem vilões, ou pelo menos escondidos o suficiente para que se torne nossa missão localizá-los.

Aliás, ironicamente, você pode até dizer que o filme é fantasioso, já que ninguém percebe que aquilo é uma metáfora para a vida: a sucessão de gerações. No entanto, não é assim que a maioria de nós encara? Sem prestar atenção à vida? Pois bem, eis uma lupa para nossa vida, nossos anos, nossa família e tudo mais que nos cerca e que damos de ombros.

A história: Dona Pilar, uma senhora de 81 anos, vive com suas duas empregadas: Consuelo, que provavelmente fez parte de sua vida, e Milagros, uma jovem que faz o que as jovens fazem: um trabalho relaxado e orientado a olhadas no celular. Ah, ela também vive com o cachorrinho Tuna, que parece estar inerte a tudo isso, mas adora estar do lado de Pilar.

Acompanhamos a rotina dessa casa mudar quando uma das filhas de Pilar avisa que irá passar a noite aí para comemorar o aniversário da mãe, no dia seguinte. Junto dela estarão sua filha e neta, respectivamente neta e bisneta de Pilar, formando então quatro gerações de mulheres da mesma família reunidas em uma noite. Algo que parece encantador é recebido aparentemente por todos como um aborrecimento obrigatório por educação.

E é assim, onde as pessoas preferem ler livros do que conversar sobre uma senhora que tem história de 8 décadas para contar, que o filme aguça nossa curiosidade acerca do passado e da relação dessa filha com sua mãe, sabendo que ela não é a favorita, mas que a veio visitar mesmo assim. Insinuações partem sutilmente das mais jovens para as mais velhas, mas não é possível afirmar nada. Como eu disse, o filme depende do espectador, de você, para ser decifrado. Como será que seu código de valores, ou sua experiência passada, irá refletir em sua visão deste filme parado, aborrecente e de sua forma, encantador?

Wanderley Caloni, 2015-06-22. Casadentro. Casadentro (Peru, 2013). Dirigido por Joanna Lombardi. Escrito por Joanna Lombardi. Com Élide Brero, Stephanie Orúe, Delfina Paredes. IMDB. Texto completo próximo ou após a estreia no CinemAqui.