Casamento de Verdade

May 19, 2016

Imagens

Este é provavelmente um projeto de longa data da diretora Mary Agnes Donoghue, que não dirige desde 1991. Ele fala de um relacionamento gay entre duas moças como se estivéssemos ainda em 1991. E se formos analisar que a protagonista é ninguém menos que a “comédia romântica” girl Katherine Heigl, ancorada por um elenco de peso no piloto automático, talvez faça até sentido a história disfarçada de ousada, mas que no fundo carrega um conservadorismo até que leve.

Dessa forma, sua personagem, Jenny, começa pedindo desculpas a toda comunidade religiosa. Ela está em um batismo, e se sente culpada. “Ela está carregando a culpa, mas o porquê eu não sei”, diz seu pai, interpretado por um Tom Wilkinson comunzinho. Sua mãe, Linda Emond, deveria ser o pilar dessa relação de mãe e filha, mas está tão paralisada quanto todo o elenco. A exceção talvez fique por conta de Grace Gummer, que faz a irmã menos favorita e cria uma analogia com a felicidade através da grama verde do seu quintal.

O filme carrega clichês de novela de uma maneira natual, e consegue embalar facilmente apenas através de seu roteiro bem estruturado. Porém, o que estraga mesmo é a trilha sonora completamente inapropriada de Brian Byrne, que praticamente estraga um filme que iria bem sem música nenhuma. Os closes de Donoghue já serviriam para um tom intimista de um drama que tenta em muitos momentos ser uma comédia. Nunca consegue, e só causa embaraço.

Embaraço também existe em todo o carregamento dramático das cenas, com um visual apelando para que entendamos o peso que aquelas pessoas passam a carregar – pai e mãe – ao saber que sua filha não irá se casar com o homem perfeito. As conversas entre os dois e a filha são o ponto forte, pois sempre soam muito naturais. Quase faz valer a pena ver o filme.

E se você o ver, irá sentir um misto de emoção e embaraço, pois não é fácil quando um filme não entende o potencial que possui, e quer sempre guiar para o outro lado, o do escrachado, o do divertidinho, com suas trilhas inconsequentes. Este é um filme tratado de forma séria por Katherine Heigl e sua parceira, Alexis Bledel, mas tratado como comédia-romântica pela diretora. A mãe, Linda Emond, parece compenetrada em algo que é difícil de entender. Porém, alguns momentos são tocantes por entendermos a dificuldade da geração anterior em lidar com as diferenças sexuais de hoje em dia. E o pai, o sensato Tom Wilkinson, entrega o de sempre, mas sem antes deixar uma ponta de dúvida sobre o que aquele pai realmente está sentindo e pensando.

Tudo parece fazer parte de memórias de uma família que passou por um trauma semelhante, e por isso o filme merece ser visto. Pode ser didático, pode ser até emocionante em algumas parte. Poderia ser um grande filme se levado a sério. Infelizmente, o lado comercial de Hollywood e as enganações de uma diretora megalomaníaca com um projeto intimista fizeram um misto entre o excelente e o insuportável.

Wanderley Caloni, 2016-05-19. Casamento de Verdade. Dirigido por Mary Agnes Donoghue. Escrito por Mary Agnes Donoghue. Com Katherine Heigl, Tom Wilkinson, Linda Emond. IMDB. Texto completo próximo ou após a estreia no CinemAqui.