Cassino

Vindo de Martin Scorsese (O Lobo de Wall Street, Taxi Driver, Touro Indomável), esse parece o Bons Companheiros – que ele também dirige – versão longa. É também sobre ascenção e queda, embora a ascenção pareça muito mais rápida que a queda. É sobre os bons e velhos tempos dos Cassinos em Las Vegas, a época das extorsões, da vista grossa, e onde os espertinhos eram tratados lá mesmo, em uma sala à parte, de preferência com um martelo. Ele conta a história de três tipos de pessoas que viviam por lá: o capanga violento e leal enquanto bem alimentado (Joe Pesci), a prostituta especialista em tomar dinheiro de apostadores (Sharon Stone) e alguém frio e calculista e disposto a atingir a perfeição para não perder seu lugar no que ele chama de paraíso (Robert De Niro).

O filme nos dá dois narradores em off: o responsável pelo Cassino mais bem-sucedido da cidade, Sam ‘Ace’ Rothstein (De Niro), que conta como o paraíso desabou pouco a pouco, e seu estourado amigo/capanga, Nicky Santoro (Pesci), e é divertido acompanhar suas diferentes opiniões sobre o mesmo ocorrido, assim como é divertido testemunhar as explosões de raiva de Pesci, como quando ele faz uso de uma caneta e conta uma história envolvendo amassar a cabeça de alguém duas vezes: antes e depois do coma.

Sharon Stone aqui consegue a proeza de flertar com o caricatual e clichê – uma prostituta que, apegada apenas ao seu cafetão e sufocada pelo controlador De Niro – e criar uma personagem de carne e osso, temperamental, e, como quase todo mundo, tentando se salvar em um mundo que desaba a olhos vistos, graças, ironicamente, ao perfeccionismo e excelência de Rothstein, incapaz de aliciar incompetentes, quem quer que sejam, mesmo que isso custe o apoio de homens mais poderosos que a máfia italiana no deserto dos EUA: os políticos de lá.

Joe Pesci faz aqui o que fez em Os Bons Companheiros bem melhor, mas ainda assim protagoniza alguns dos momentos mais memoráveis da cinegrafia violenta do diretor. Os saltos morais que ele dá, principalmente no terceiro ato do filme, são mostrados de uma maneira sutil, mas não deixam de ser reprováveis, e é quando ele perde o apoio do espectador (já havia perdido do diretor, um, acredite ou não, moralista).

E De Niro consegue manter o controle e a compreensão do espectador ao mostrar alguém disposto a arriscar até um casamento que tem tudo para dar errado, mas que tenta manter o controle ainda assim. Sua administração no Cassino é invejável, e ao sabermos que o único “crime” – exceto explorar a ambição alheia – é sonegar impostos, ganha a simpatia do público. O problema é quando as coisas começam a sair do controle, e vemos o quão longe vai a obsessão do sujeito, tratando sua esposa como propriedade e seu amigo como um incômodo para os negócios. Se fosse um empreendedor em um negócio com menos política, seria o próximo bilionário da Forbes. Por cair na tentação de voar sozinho e mais alto, arriscou alto demais.

Esse é, assim como O Lobo de Wall Street, um filme longo, porém intenso, sempre tendo algo a contar, com uma história recheada de acontecimentos, diálogos memoráveis, cenas marcantes. Mais uma vez um deleite ao adentrar no universo da máfia e de suas apostas.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2016-02-10 imdb