Cavaleiro de Copas

Nov 26, 2016

Imagens

É difícil não gostar do estilo do diretor Terrence Malick. Em meio ao turbilhão de narrativas que preferem esfregar fatos na cara do espectador a cada segundo, Malick está sempre disposto a dar tempo ao tempo, rodar por duas horas e nos fazer questionar a própria textura da realidade em que a história se passa. Suas aventuras não estão limitadas a eventos pontuais, mas a transformações graduais, assim como na vida. Tudo isso pode ser fascinante se você, assim como eu, se cansa às vezes da mesmice narrativa de filmes convencionais, ou, por outro lado, pode ser uma tortura eterna tentar acompanhar filmes como Cavaleiro de Copas, que insiste que o conteúdo faz parte da mensagem.

Aqui, infelizmente, não é possível extrair muito da mensagem apenas pelo seu conteúdo, já que o diretor/escritor de A Árvore da Vida e Amor Pleno parece cada vez menos afeito a entregar as coisas facilmente para seu espectador. Entenda este filme como uma poesia que caminha através das dúvidas existenciais de Rick (Christian Bale) após a morte da mãe, e que junto do suposto suicídio do irmão tem motivos suficientes para questionar sua vida glamorosa de pop star em Hollywood, junto de seu outro irmão e o pai.

Diferente do mais intimista Amor Pleno e mais próximo de A Árvore da Vida, Malick mais uma vez une uma aventura cósmica em nosso planeta com um drama familiar. Aprendemos que há muito da realidade, como terremotos e uma gravidez, que pode ser considerada mística e divina. Principalmente se você está acostumado a frequentar lugares suntuosos e imponentes, com grandes colunas, clássica arquitetura e uma multidão de pessoas que simplesmente se divertem e estão em busca de sensações, o que faz todo o sentido. Afinal de contas, o que há para ser conquistado pelos deuses do Olimpo?

Por isso mesmo Rick se consulta em uma cartomante, onde onde se extrai os capítulos do filme, intitulados pelas cartas do Tarô, além do próprio título. Los Angeles é uma cidade marcada pelo esotérico, pois seus habitantes estão no topo do mundo, inventando mil significados para existirem, como Cientologia, Nova Era, Era de Aquarius, O Segredo, entre outros.

Até por isso o sexo é visto como uma brincadeira trivial para Rick, da mesma forma com que o irmão brinca com ele de maneira física. São sensações. E este é um filme de sensações, facilitada não apenas pelas exuberantes tomadas de Malick e seu movimento ritmado da câmera, que consegue manter um quadro coeso ao mesmo tempo que vívido, mas também pela fotografia impecável de Emmanuel Lubezki, que consegue caminhar facilmente por diferentes cenários, sejam as luzes naturais do deserto ou as artificiais de Las Vegas, e a edição primorosa do próprio Malick, que além do ritmo realiza na montagem a extração de múltiplos significados entre elementos em movimento na tela. De repente um avião passa de um lado a outro, e na próxima cena vemos uma pessoa nadando no fundo da piscina.

Aliás, a repetição dos mesmos elementos – andar na rua, no deserto, piscina, cama, banquetes – denota a rotina do protagonista – sim, a rotina! – destituída de um significado maior. Tudo isso começa a fazer sentido para nós quando vemos como a futilidade da vida dos que têm tudo pode ser perigosa para a própria vida. Malick talvez esteja tentando contar uma história poética sobre um cavaleiro que adentra em diferentes mundos e disso extrai o que precisa para continuar o reino de seu pai, mas incidentalmente este é um filme sem propósito maior, por melhor que seja a música-tema de Hanan Townshend, que consegue se repetir sem se tornar exaustiva, ou por maior que sejam as pretensões do filme, que chega ao cúmulo de fazer “tomadas aéreas” do planeta Terra, sua aurora bureal e suas cidades reluzentes, de maneira a tentar obter uma união entre a natureza e o homem pelo misticismo. Olhe como a natureza é milagrosamente linda e sobrenatural. Olhe como o homem, do alto do Olimpo, não parece ter mais objetivos por lutar.

Mas não vamos tão longe. Este filme é apenas uma janela de percepção que se abre para um pequeno momento na vida de uma pequena criatura humana. E como todos os filmes de Malick, uma maneira de tentar nos situar, como seres da natureza, em algum lugar que tenha significado nesse amontoado de informações que temos a respeito da vida, do universo e tudo mais. O que é digno de aplausos é que o filme, enquanto simples em sua estrutura, consegue ser tão fascinante para quem o acompanha. Desde, é claro, que você esteja disposto a essa experiência.

Wanderley Caloni, 2016-11-26. Cavaleiro de Copas. Knight of Cups (USA, 2015). Dirigido por Terrence Malick. Escrito por Terrence Malick. Com Christian Bale (Rick), Cate Blanchett (Nancy), Natalie Portman (Elizabeth), Brian Dennehy (Joseph), Antonio Banderas (Tonio), Freida Pinto (Helen), Wes Bentley (Barry), Isabel Lucas (Isabel), Teresa Palmer (Karen). IMDB.