Cegonhas - A História Que Não Te Contaram

Não se engane com a simplicidade deste filme (porque ele é bem simples). Seu jogo de cintura rápido, suas gags ligeiras – metade ruim, metade interessante – seus conceitos um tanto esquizofrênicos – uma hora algo é importante, depois é outra, depois volta de novo – e os diálogos expositivos de tudo que está acontecendo – principalmente da boca do filho de um casal super-ocupado – parecem obra de um amador. Parece tanto, mas tanto, que não é possível que ele seja. Há algo escondido nesse roteiro com uma produção de animação decente, com trilha grandiosa e fotografia competente. É um filme que parece zombar das produções Disneyanas, que insistem em mensagens de amor destacadas da realidade. E mesmo que você diga que os motivos por trás dessa atração é a fofura dos bebês, mesmo retirando-os de campo, fica difícil não gostar do resultado final.

A história conta que antigamente as cegonhas entregavam bebês nos moldes tradicionais da crença popular. No entanto, devido a vários problemas em entregar carne humana viva, com olhos esbugalhados fontes de afeição incondicional, o ramo das cegonhas mudou drasticamente para corporação estilo “AliExpress”. Isso é novamente uma crítica ao capitalismo? Não se sabe. É algo meio anti-corporativismo, pois a cegonha dona disso tudo pretende colocar o entregador mais eficiente como chefe para que ele demita uma órfã que vive com as cegonhas por não ter conseguido ser entregue. A palavra “chefe” tem uma conotação bombástica na mente dos subordinados, mas por algum motivo, nosso herói não tem a mínima ideia do que chefes fazem. Bom, sim, é um pouco anti-capitalismo (corporativo).

A introdução consegue ainda apresentar de maneira eficiente o garoto que deseja ardentemente um irmão para conseguir a atenção de um ser humano, já que seus pais, apesar de trabalharem em casa, vivem para atender seus clientes do ramo imobiliário (OK, agora está gritante demais: é um filme anti-capitalismo, e de uma maneira torta, meio anti-crise, ou qualquer anti-coloque-sua-neura-socialista-aqui que invoque o ramo imobiliário, falta de atenção dos pais e solidão infantil).

Acho que nem é preciso dizer que a órfã produz o bebê do menino e agora eles precisam entregá-lo. Tanto uma ponta quanto a outra da história irão obviamente se encontrar mais pra frente, mas o desenvolvimento de ambos é feito de uma maneira empolgante deste o começo. As coisas vão indo bem de ambos os lados, e tudo parece ir incrivelmente bem na história. Até os vilões, lobos reunidos em uma alcateia de dezenas deles – e que formam as construções mais malucas com seus corpos – não são exatamente maus. Quem merece morrer mesmo, é claro, sempre será o capitalista malvadão.

No meio do caminho algumas ideias são interessantes. A própria abordagem de uma família não tão convencional (ambos os pais trabalhando de casa) e a própria forma utilizada pelos idealizadores de demonstrar como uma família é apenas um grupo de pessoas que se amam, independente de quantidade, gêneros, convenções, etc, é algo positivo demais para ser deixado tão de passagem. Mas vamos com calma. Além do mais, o arco desenvolvido por uma cegonha e uma humana pode muito bem caracterizar a formação espontânea de uma família criada pela necessidade de cuidar de um bebê (como divertidamente é ilustrado no primeiro momento que a menina ouve o berro da criança, influenciada por milênios de treinamento instintivo). Portanto, essa análise continua nos trilhos.

Também é interessante como a narrativa flui de uma maneira agitada, quase sempre não dando muito tempo ao espectador para aproveitar todas as gags e situações que os heróis vão enfrentar. Tudo isso meio que disfarça a falta de uma tensão verdadeira, já que, como falei, tudo dá sempre certo.

A trilha sonora, como não poderia deixar de ser, é formada por músicas da moda, mas que são bem escolhidas para os momentos que tocam. Além do mais, toda a grandiosidade da partitura composta por Jeff Danna e Mychael Danna serve bem à mudança de paradigma das cegonhas.

Por fim, fica difícil de achar algo palpável para criticar, pois tudo vai do medíocre para o muito bom, sempre sem conseguir atingir o excepcional. Uma pena, pois não haverão momentos marcantes deste filme na memória do espectador. Mas, ainda assim, é uma aventura digna o suficiente. Isso para uma animação é uma conquista e tanto.

PS: Há um curta Lego muito engraçadinho antes do filme começar. É uma bobagem, mas eficaz o suficiente. Seguindo a linha do longa, portanto.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2016-10-15 imdb