Cegonhas - A História Que Não Te Contaram

Oct 15, 2016

Imagens

Não se engane com a simplicidade deste filme (porque ele é bem simples). Seu jogo de cintura rápido, suas gags ligeiras – metade ruim, metade interessante – seus conceitos um tanto esquizofrênicos – uma hora algo é importante, depois é outra, depois volta de novo – e os diálogos expositivos de tudo que está acontecendo – principalmente da boca do filho de um casal super-ocupado – parecem obra de um amador. Parece tanto, mas tanto, que não é possível que ele seja. Há algo escondido nesse roteiro com uma produção de animação decente, com trilha grandiosa e fotografia competente. É um filme que parece zombar das produções Disneyanas, que insistem em mensagens de amor destacadas da realidade. E mesmo que você diga que os motivos por trás dessa atração é a fofura dos bebês, mesmo retirando-os de campo, fica difícil não gostar do resultado final.

A história conta que antigamente as cegonhas entregavam bebês nos moldes tradicionais da crença popular. No entanto, devido a vários problemas em entregar carne humana viva, com olhos esbugalhados fontes de afeição incondicional, o ramo das cegonhas mudou drasticamente para corporação estilo “AliExpress”. Isso é novamente uma crítica ao capitalismo? Não se sabe. É algo meio anti-corporativismo, pois a cegonha dona disso tudo pretende colocar o entregador mais eficiente como chefe para que ele demita uma órfã que vive com as cegonhas por não ter conseguido ser entregue. A palavra “chefe” tem uma conotação bombástica na mente dos subordinados, mas por algum motivo, nosso herói não tem a mínima ideia do que chefes fazem. Bom, sim, é um pouco anti-capitalismo (corporativo).

A introdução consegue ainda apresentar de maneira eficiente o garoto que deseja ardentemente um irmão para conseguir a atenção de um ser humano, já que seus pais, apesar de trabalharem em casa, vivem para atender seus clientes do ramo imobiliário (OK, agora está gritante demais: é um filme anti-capitalismo, e de uma maneira torta, meio anti-crise, ou qualquer anti-coloque-sua-neura-socialista-aqui que invoque o ramo imobiliário, falta de atenção dos pais e solidão infantil).

Acho que nem é preciso dizer que a órfã produz o bebê do menino e agora eles precisam entregá-lo. Tanto uma ponta quanto a outra da história irão obviamente se encontrar mais pra frente, mas o desenvolvimento de ambos é feito de uma maneira empolgante deste o começo. As coisas vão indo bem de ambos os lados, e tudo parece ir incrivelmente bem na história. Até os vilões, lobos reunidos em uma alcateia de dezenas deles – e que formam as construções mais malucas com seus corpos – não são exatamente maus. Quem merece morrer mesmo, é claro, sempre será o capitalista malvadão.

No meio do caminho algumas ideias são interessantes. A própria abordagem de uma família não tão convencional (ambos os pais trabalhando de casa) e a própria forma utilizada pelos idealizadores de demonstrar como uma família é apenas um grupo de pessoas que se amam, independente de quantidade, gêneros, convenções, etc, é algo positivo demais para ser deixado tão de passagem. Mas vamos com calma. Além do mais, o arco desenvolvido por uma cegonha e uma humana pode muito bem caracterizar a formação espontânea de uma família criada pela necessidade de cuidar de um bebê (como divertidamente é ilustrado no primeiro momento que a menina ouve o berro da criança, influenciada por milênios de treinamento instintivo). Portanto, essa análise continua nos trilhos.

Também é interessante como a narrativa flui de uma maneira agitada, quase sempre não dando muito tempo ao espectador para aproveitar todas as gags e situações que os heróis vão enfrentar. Tudo isso meio que disfarça a falta de uma tensão verdadeira, já que, como falei, tudo dá sempre certo.

A trilha sonora, como não poderia deixar de ser, é formada por músicas da moda, mas que são bem escolhidas para os momentos que tocam. Além do mais, toda a grandiosidade da partitura composta por Jeff Danna e Mychael Danna serve bem à mudança de paradigma das cegonhas.

Por fim, fica difícil de achar algo palpável para criticar, pois tudo vai do medíocre para o muito bom, sempre sem conseguir atingir o excepcional. Uma pena, pois não haverão momentos marcantes deste filme na memória do espectador. Mas, ainda assim, é uma aventura digna o suficiente. Isso para uma animação é uma conquista e tanto.

PS: Há um curta Lego muito engraçadinho antes do filme começar. É uma bobagem, mas eficaz o suficiente. Seguindo a linha do longa, portanto.

Wanderley Caloni, 2016-10-15. Cegonhas - A História Que Não Te Contaram. Storks (USA, 2016). Dirigido por Nicholas Stoller, Doug Sweetland. Escrito por Nicholas Stoller. Com Andy Samberg (Junior), Katie Crown (Tulip), Kelsey Grammer (Hunter), Jennifer Aniston (Sarah Gardner), Ty Burrell (Henry Gardner), Anton Starkman (Nate Gardner), Keegan-Michael Key (Alpha Wolf), Jordan Peele (Beta Wolf), Danny Trejo (Jasper). IMDB.